domingo, 25 de janeiro de 2009

Conto - Génios - Risler Junior

O homem era realmente um crânio e desde bastante novo, quem com ele se relacionou admirava-se com a acutilância dos seus comentários e a argúcia das suas conclusões e opiniões; ' o puto ' irá muito longe se não tresmalhar nos atalhos e escolhos da vida. Com Vinte e Um anos já era formado em informática e tinha arranjado um emprego compatível numa multinacional o que se adivinhava promissor.Era um emprego com futuro. Passados uns tempos foi contratado por um banco que necessitava de um bom informático.

Nesse banco revelou-se um excelente profissional e ajudou a montar o sistema informático o que lhe trouxe rendimentos acrescidos, prémios de produtividade e viagens pagas; entretanto surge um novo banco no mercado que o convidou a chefiar o departamento de informática. Convite aceite de pronto. Parece até aqui uma história enfadonha mas irá ver que mais parece o argumento de um filme. Senão vejamos.

Enquanto desenvolvia o sistema do primeiro banco arranjou um método paralelo para dar largas à imaginação implementando um método a uma caixa automática o sistema debitava a conta bancária em menos dinheiro do que aquele que fornecia. Se pedissem cinco euro a máquina dava cem. Se pedissem dez a máquina pagava duzentos.

Como podemos adivinhar, nos fechos dos ciclos, aquelas máquinas fechavam com dinheiro a menos; coisas de contabilidade e era um verdadeiro quebra-cabeças com a agravante de as perdas irem crescendo e todos sabemos que os bancos e seguradoras não existem para perder dinheiro. Quando aceitou o convite do segundo banco, estendeu o sistema também a este, porque não ? E a sangria aumentou. Agora em dois bancos.

Diz o rifão que Deus escreve direito por linhas tortas e eis que a polícia detém uns quantos estudantes que tinham também um método não tão bem elaborado mas eficaz. Alugavam um quarto de hotel do qual vissem os códigos de acesso quando estava alguém a utilizar a caixa automática e a equipa no terreno roubava o cartão. Era um fartote e o negócio florescera até aquele aziago dia. Para escaparem à prisão e às reprimendas do juiz, aceitaram ser arregimentados para ajudar a deslindar o assunto da nossa história que não dava mostras de solução; afinal não há melhor que um ladrão para apanhar outro...

Mas, vou contar outra história antes de terminar. A Arte Aguça o Engenho. Não é verdade ? Há alguns anos em Paris, na semana da Páscoa e num acesso ao Metropolitano alguém montou um esquema muito engenhoso. Colocou-se um grande cartaz a avisar os circunstantes da abertura para breve de uma nova caixa automática e na Quinta-Feira Santa, após fecho dos bancos, foi a dita aberta ao público; o utilizador dirigia-se-lhe, metia o cartão, discava o código e a solícita da máquina dizia-lhe, educada : " por motivos de Segurança o seu cartão fica retido. Dirija-se ao seu banco. ", enquanto do outro lado os levantamentos se iniciavam. A burla só seria descoberta na segunda-feira e foram muitos os lesados pela imaginação, engenho e génio.

Passaram a pente fino todos os registos e ' eureka ', havia um padrão comum a todas as caixas onde o dinheiro faltava. Quatro cartões de débito associados a duas contas em dois bancos diferentes e a marosca estava descoberta e caçados o criativo e sua consorte. Todo o dinheiro assim desviado estava incólume. Os nossos heróis não tinham gasto um único cêntimo nem faziam tensões de gastar.

Indagado o informático acerca daquele comportamento e motivações respondeu que o que ganhava era suficiente para viver bem. Não precisava dele. Precisava isso sim que a sociedade reconhecesse nele um génio. De que valia ser um tão grande ' artista ' se ninguém lhe reconhecesse a genialidade ? Isso já ele sabia e não lhe chegava. Nos nossos dias há outros métodos como o laço libanês nos quais o larápio usa de delicadeza, boas roupas e um grande sentido de entreajuda na hora de alguém ficar sem o cartão que ele irá usar. Desconfiem de tanta solicitude e como estamos em história com provérbios, fiquem com outro : ' quando a esmola é muita, o pobre desconfia... ' e façam os dias felizes...

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