quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Conto - Antigamente - Risler Junior

Nesta era digital e dos inventos a metro os mais desavisados, menos informados, indiferentes, desconfiados e cépticos que tomam tudo por adquirido, pensarão erroneamente que todas as modernices e comodismos consumistas existirão desde sempre; sou do contra e desmancha prazeres e vou passar a contrariá-los.
No presente temos o papel higiénico de folha simples, dupla, tripla, reciclado ou não, branco, preto e de todas as cores do arco-íris e até os há personalizados e impressos com figuras de banda desenhada ou efígies de personagens menos queridas como o Bush ou odiadas como o Bin Laden; nunca com a cara do utilizador. Denotaria mau gosto.

Quando miúdo os privilegiados davam um outro uso aos jornais depois de lidos que não iam para o lixo mas transformados em papel " higiénico " o que, dizia-se à época " ensinaria o cu a ler ". Os mais desafortunados faziam-no usando a imaginação. Não ! Não limpavam o dito cujo à dita. Seria difícil, usavam pedras, sabugos de milho, folhas de árvores e plantas, areia, eu sei lá. O leão da anedota perguntava ao coelho enquanto obrava : ' Tu largas pelo, coelhinho branco ? ' Os afortunados papel vegetal do fininho e cortado a preceito. Quem pode pode, já se sabe...

Nos idos de Cincoenta e Sessenta do século passado o sabão era azul ou vermelho e dava para lavar desde a roupa aos corpos. Sim, não havia gel de banho nem shampô e o Life Boy rosado e em barra que se bipartia era usado por muito poucos. O Rexona e por pudor dos sacristas do Estado Novo chamava-se Rexina, era sexualmente menos apelativo mas um luxo de nove em cada dez estrelas; a boazona da Raquel Welsh usava-o. O Eusébio dizia que o sabonete dele era o Life Boy. A Amália usava o Lux.

As carteiras das escolas tinham um tinteiro duplo metido numa ranhura, um para tinta e outro de lixívia para correcções e as canetas eram de pena ou de madeira com aparo amovível; era sujo e uma chatice dobrada para quem aprendia o B A BA. Os alunos tinham pequenas ardósias debruadas a madeira e um regrão da mesma ardósia para a escrita pois as sebentas eram caras e a esferográfica BIC veio revolucionar a escrita com duas escritas à sua escolha, BIC BIC BIC...

Comprar um móvel rádio ou um gira-discos era uma pequena fortuna. Até um rádio de pilhas não era barato e os discos eram em vinil e os gravadores de bobinas de fita, as máquinas fotográficas eram Kodac's ( o velho Mesquita Kodac ficou-lhe com o nome ) e faziam-se tarefas à luz das velas, candeeiros de petróleo ou Petromax com camisinha. Quem não tinha um fogão primo da Hipólito cozinhava a carvão ou lenha e os banhos eram tomados com um chuveiro feito pelo latoeiro ou improvisado de um balde com furos no fundo. Muitos lares nem casa de banho tinham.

Quem vê um pacote de leite pode ser levado a crer que o leite " nasce " empacotado e que o feijão e o grão crescem em latas ou boiões de vidro; no passado o leite era Nestlé, Nido, Suil, fervidos ou posto à porta pelo leiteiro; e o feijão e o grão eram demolhados e cosidos; crianças há que nunca viram uma galinha ou um feijoeiro.

O emprego era para toda a vida e garantia de relógio de ouro e jantar de despedida, hoje é precário, descartável e como não há jantares grátis... nunca ouviu ? Dizem : vá passando por cá e entretanto vá jantar a casa! As casas eram arrendadas, as famílias tinham mais filhos, as esposas fadas do lar a cuidar da prole; hoje compram-se casas sem ter dinheiro, para pagar em cincoenta anos, tem-se um filho ou nenhum e as mulheres mandam às claras que sempre é melhor que mandarem com meias tintas. As malas eram de cartão e colavam-se-lhes rótulos para embasbacar os papalvos e mostrar o quão viajados eram. Hoje viaja-se com mala de pele, Benneton, Louis Vuiton, sem etiquetas porque assim manda o low profile e não convém ostentar; só os patos-bravos, os parvennu ou os chulos é que pensam ser fino pavonearem-se.Tão démodè...

Os aviões eram a hélice e os automóveis à manivela e com radiadores monstros e sempre a aquecerem e bebendo mais água que camelo de beduíno, as bicicletas pesavam como chumbo; hoje temos " Admirável mundo novo " em que o real há muito ultrapassou o imaginário. Qual Júlio Verne, qual Aldous Huxley. Isto não é um mistério. Plagiando personagem de Mário Zambujal " Todo o mistério tem explicação. A explicação é que que pode ser inexplicável ". O mais velho é que sabe...

Os sapateiros faziam reparações e sapatos para pobre e remediado que iam buscar às lojas de curtumes e que vinham abertos e sem solas como bacalhau seco e que à força de sovela, fio ensebado, anilina, calor, agulha e muita habilidade, ganhavam forma; hoje, sapatos à mão só para ricos e os que precisam de reparação vão para o lixo. Até o bacalhau prefere mesa rica e os pobres como o Chitumba, o velho sapateiro da minha infância com o qual me embevecia a ver trabalhar ou o Manuel Sapateiro artesão de mão cheia, já estão num mundo melhor e com mesa mais farta que o pirão de pala-pala ou o peixe seco emalado acompanhados com vinho a martelo, de fruta que não uva ou baptizado.

O Boston da minha infância, alfaiate que confeccionava pijamas, casacos, fatos e camursinas e que só tinha meças no Monteiro Alfaiate e que era também árbitro de futebol gerador de zaragatas na assistência já bem bebida e nos jogadores que eram amadores. Hoje as roupas compram-se feitas, continua-se a beber nos estádios, os árbitros continuam polémicos e os jogadores são profissionais com grande apego ao dinheiro; que se lixe o amor à camisola que não compra carro de marca ou apartamento de luxo...

A explicação estará afinal no próprio genoma humano e qualquer inovação será amanhã obsoleta porque a mente e imaginação humanas não têm limites e os avanços científicos e tecnológicos para o melhor e para o pior estão em velocidade de cruzeiro. É tanta nostalgia que alguns de vós já têm o lenço de papel à mão. E os lenços de pano...chorem nostalgicamente mas não deixem de fazer os dias felizes...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Conto - Génios - Risler Junior

O homem era realmente um crânio e desde bastante novo, quem com ele se relacionou admirava-se com a acutilância dos seus comentários e a argúcia das suas conclusões e opiniões; ' o puto ' irá muito longe se não tresmalhar nos atalhos e escolhos da vida. Com Vinte e Um anos já era formado em informática e tinha arranjado um emprego compatível numa multinacional o que se adivinhava promissor.Era um emprego com futuro. Passados uns tempos foi contratado por um banco que necessitava de um bom informático.

Nesse banco revelou-se um excelente profissional e ajudou a montar o sistema informático o que lhe trouxe rendimentos acrescidos, prémios de produtividade e viagens pagas; entretanto surge um novo banco no mercado que o convidou a chefiar o departamento de informática. Convite aceite de pronto. Parece até aqui uma história enfadonha mas irá ver que mais parece o argumento de um filme. Senão vejamos.

Enquanto desenvolvia o sistema do primeiro banco arranjou um método paralelo para dar largas à imaginação implementando um método a uma caixa automática o sistema debitava a conta bancária em menos dinheiro do que aquele que fornecia. Se pedissem cinco euro a máquina dava cem. Se pedissem dez a máquina pagava duzentos.

Como podemos adivinhar, nos fechos dos ciclos, aquelas máquinas fechavam com dinheiro a menos; coisas de contabilidade e era um verdadeiro quebra-cabeças com a agravante de as perdas irem crescendo e todos sabemos que os bancos e seguradoras não existem para perder dinheiro. Quando aceitou o convite do segundo banco, estendeu o sistema também a este, porque não ? E a sangria aumentou. Agora em dois bancos.

Diz o rifão que Deus escreve direito por linhas tortas e eis que a polícia detém uns quantos estudantes que tinham também um método não tão bem elaborado mas eficaz. Alugavam um quarto de hotel do qual vissem os códigos de acesso quando estava alguém a utilizar a caixa automática e a equipa no terreno roubava o cartão. Era um fartote e o negócio florescera até aquele aziago dia. Para escaparem à prisão e às reprimendas do juiz, aceitaram ser arregimentados para ajudar a deslindar o assunto da nossa história que não dava mostras de solução; afinal não há melhor que um ladrão para apanhar outro...

Mas, vou contar outra história antes de terminar. A Arte Aguça o Engenho. Não é verdade ? Há alguns anos em Paris, na semana da Páscoa e num acesso ao Metropolitano alguém montou um esquema muito engenhoso. Colocou-se um grande cartaz a avisar os circunstantes da abertura para breve de uma nova caixa automática e na Quinta-Feira Santa, após fecho dos bancos, foi a dita aberta ao público; o utilizador dirigia-se-lhe, metia o cartão, discava o código e a solícita da máquina dizia-lhe, educada : " por motivos de Segurança o seu cartão fica retido. Dirija-se ao seu banco. ", enquanto do outro lado os levantamentos se iniciavam. A burla só seria descoberta na segunda-feira e foram muitos os lesados pela imaginação, engenho e génio.

Passaram a pente fino todos os registos e ' eureka ', havia um padrão comum a todas as caixas onde o dinheiro faltava. Quatro cartões de débito associados a duas contas em dois bancos diferentes e a marosca estava descoberta e caçados o criativo e sua consorte. Todo o dinheiro assim desviado estava incólume. Os nossos heróis não tinham gasto um único cêntimo nem faziam tensões de gastar.

Indagado o informático acerca daquele comportamento e motivações respondeu que o que ganhava era suficiente para viver bem. Não precisava dele. Precisava isso sim que a sociedade reconhecesse nele um génio. De que valia ser um tão grande ' artista ' se ninguém lhe reconhecesse a genialidade ? Isso já ele sabia e não lhe chegava. Nos nossos dias há outros métodos como o laço libanês nos quais o larápio usa de delicadeza, boas roupas e um grande sentido de entreajuda na hora de alguém ficar sem o cartão que ele irá usar. Desconfiem de tanta solicitude e como estamos em história com provérbios, fiquem com outro : ' quando a esmola é muita, o pobre desconfia... ' e façam os dias felizes...

sábado, 26 de abril de 2008

Conto - O Concurso - Risler Junior

Há alguns dias atrás, nós os que gostamos de fazer da leitura um prazer quotidiano, fomos agradavelmente surpreendidos por uma notícia de jornal que só não passou despercebida porque estamos habituados a ler as letras miudinhas e de pé de página; sim, aquelas que o governo deseja que sejam mais gordas.E nós que já nos habituaramos a elas, impressas nos contratos feitos pelos Bancos e Seguradoras.Que pena...Mais pena sinto porque os nossos governantes que têm bons olhos para nos sugarem os impostos só agora se tenham lembrado de acabar com as letras anorécticas e bulímicas.É que ao fim de todos estes anos a aumentar as dioptrias...Lá estou eu a divagar.
É claro que as letras da penúltima página de um jornal desportivo da nossa praça bem como as da revista de domingo se lêem muito melhor, embora pequenas; deve ser das fotografias que lhes dão um certo colorido.
A notícia em questão dizia respeito a um concurso de misses o que é sempre aliciante para os espectadores masculinos e digno da inveja do feminino que fica sempre com uma pontinha de ciúme ao ver desfilar a concorrência em fato de banho, exíguo, ou de vestidinho de gala.O extraordinário deste concurso é que à miss vencedora não tocará como prémio, um apartamento, uma viagem ou uma viatura topo de gama mas algo bem mais prosaico e útil, de confecção nórdica, mais propriamente da Noruega, uma prótese que dará um jeitão à feliz vencedora que, infelizmente, só tem uma perna tal qual as perdedoras.
Trata-se de um concurso patrocinado pelo governo angolano e pela União Europeia destinado a mulheres sobreviventes da guerra civil que despoletou em Angola em 1975.Esta é a segunda edição e faço votos para que se perpetue e digo-o com um misto de mágoa e contentamento; mágoa porque seria bom que não existisse uma tal competição o que significaria que a época das guerras teria chegado ao fim. Contentamento porquanto aquelas mulheres têm o mesmo direito que as bípedes com ambas as pernas e neste aspecto, esta é uma óptima iniciativa.
Aos vinte anos, como qualquer mancebo em idade de prestar serviço militar, fui para a recruta onde tive aulas que versavam temas como minas antipessoais, anticarro, explosivos, bombas, cocktails molotof e afins.Deitei todos os livros e apontamentos ao lixo na sequência do Onze de Novembro de má memória, não fosse o governo encetar buscas casa a casa e eu não ter argumentos para o facto de ter conservado, tantos anos passados, literatura subversiva e terrorista, embora fornecida legitimamente pelo nosso exército.
É dos jornais que uma mina antipessoal custa cerca de três euros e a mesma mina, numa operação de desminagem pode custar até cem vezes mais ou até custar vidas aos sapadores ou de crianças e pessoas menos avisadas.Quando fiz tropa lidei com minas de vários tipos desde as clássicas até as saltadoras como a " Encrier " que era capaz de cortar uma pessoa ao meio.O ser humano, provavelmente, nunca deixará de me surpreender e quase sempre pela negativa.As minas anticarro eram usadas a preceito, de maneira a não rebentarem à passagem da primeira ou segunda viatura mas à terceira, quando se pensava que não havia minas e então...Buuummm!!!
Como a beleza é um conceito estereotipado e o que é belo para mim pode ser desagradável e uma afronta a um qualquer Papua da Nova Guiné, o que se pretende com este concurso é não mais do que enaltecer a valentia e o orgulho femininos.
Posto isto que vença a mais bonita, mais sexy e sensual e que além da perna postiça, uma das concorrentes vença prémios mais substantivos e já agora que criem uma miss mundo ou miss universo para mulheres com uma só perna.Ou há moral ou comem todas.A votação é feita na Internet.' Bora lá todos votar em massa ' e que ganhe a melhor brasa.
Deixo uma ideia ao artista Morten Traaviu que é o suporte deste concurso.Porque não uma Miss Nua Landmine já na próxima edição? Mentira.Estava só a brincar.Vocês até sabem que não há nada como uma mulher vestida para dar asas à imaginação masculina.Tenham juízo e não deixem de fazer os dias felizes...

Conto - O Professor - Risler Junior

A matemática é daquelas disciplinas que na infância e juventude provoca calafrios aos mais avisados e suores frios aos desavisados e incautos.Os únicos alunos que não se sentem assim são aqueles, poucos, que aos três anos já sonham com a licenciatura em matemáticas puras e almejam ser um Nuno Crato ou um Carlos Fiolhais para falar apenas nos conterrâneos.
Mas e sempre haverá um ' mas ', ainda existe uma outra espécie que compreende aqueles que idealizam fazer carreira como docentes de matemática sem que se tenham dado ao trabalho e incómodo de reunir as habilitações necessárias e exigidas legalmente; são apenas impulsionados por falta de moral e ausência de ética mas sobra-lhes arrojo, coragem e desfaçatez em excesso e vai daí...lançam-se numa corrida para a frente.Aparentemente sem olhar aos estragos que esta conduta provocará no próprio e naqueles que dependerão dos seus ensinamentos.Não me surpreendem estes comportamentos pois se até existem falsos padres e falsos médicos.Porque não falsos professores ?
Um falso professor de matemática foi condenado a dezoito meses de prisão, espero que efectiva,por ter exercido a profissão durante trinta anos.Qual profissão, perguntar-me-ão os mais atentos? Se não o era não tinha profissão.Pois, pois, dou-lhes razão.Com um pouco de sorte, ter-se-ia reformado em glória.É azar! Trinta anos e agora como brasileiro diz " pintou zebra ".Se fosse um nosso compatriota, diria : " quem mais faz, menos merece e mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga ".Neste caso, não sei se Deus ajudou e tendo-o feito, terá ajudado quem?
Ele há cada coisa.Como conseguiu esta proeza digna de um qualquer Guiness ? É uma pergunta pertinente que provavelmente ficará sem resposta mas há mais perguntas, nestes trinta anos, o falso prof, formou ou não alunos e será que algum deles se tornou matemático eminente,informático genial ou físico quântico ? Como se sentirão os seus antigos alunos, alguns com licenciaturas, sabendo agora que tiveram a soberba e valiosa ajuda dum professor não credenciado ? Respondo que se sentirem mal, vão à consulta de um antigo colega, agora psicanalista e talvez saiam do consultório com mais perguntas que respostas.É lixado.
Terá a Secundária de Portalegre ficado mais pobre com a prisão deste docente ? Se ficou, deveria ficar registada em acta a falta que ele fará.Ele deve ser um génio ao nível de um Pierre Fermat, matemático amador do século XVII, o tal que deixou escrita uma nota à mão, num compêndio de Arithmetica de Diofanto de Bachet ( matemático grego que viveu em Alexandria ) para o posteridade que " não tinha espaço para uma demonstração porque o desenvolvimento não cabia nas margens do livro ". E, é certo que até hoje ninguém sabe nem do livro nem se ele teria razão com aqueles comentários ou se não seria gabarolice.Mas tinha razão...Precisaria de duzentas páginas.
Será que o prof se terá gabado e na sequência foi denunciado por algum invejoso ? Será que se candidatou aquela sociedade secreta de antigos matemáticos franceses, BOURBAKY, que era um pseudónimo colectivo e que a sociedade lhe solicitou o currículo e como ele demorasse a enviá-lo o denunciaram; que eles , os Bourbakianos,são brincalhões e com filiação à Universidade de Nancago ( Nancy+Chicago ), já nós sabemos ou será que o falso prof se auto denunciou ?
De que vale sermos geniais se ninguém souber ? É que a glória só sabe bem se não for anónima.Glória é ele gabar-se na prisão aos colegas presidiários e dizer que "durante trinta anos dei aulas numa secundária sem habilitações " e os Carteiristas, Ladrões, Burlões e afins, abrirem a boca de espanto e responderem que também querem ser matemáticos porque alguns deles e por crimes bem menores, estarão muito mais tempo à sombra do que o nosso espertalhão das dúzias.Tenho ainda outra pergunta. Será que os descontos que fez para a reforma são válidos e terá ele direito a ela ? Eu gosto de finais felizes ( é um contrasenso e eu sei que vou ser contraditório ) e fico a torcer para que, dentro de seis meses, ele saia em liberdade e que a Secundária o readmita.Afinal em trinta anos nunca tiveram razões de queixa.O crime tem de compensar.Formar jovens não é nenhum crime e só foi crime porque ele foi apanhado.Façam os dias felizes...

Conto . A Grande Guerra -Risler junior

Conheci na minha infância, no início da década de sessenta do século passado, o patriarca de uma família de nome Coração, homem de porte orgulhoso, embora cansado pelas andanças e vicissitudes da vida, que infundia respeito aos circunstantes; fora na juventude um dos sobreviventes do Corpo Expedicionário Português, composto por vinte mil homens, que sob as ordens do Comando do 1º Exército Britânico, contribuiu com mais de seis mil mortos e mil e quinhentos desaparecidos e prisioneiros na batalha de La Lys.Uma verdadeira carnificina.
A Primeira Grande Guerra mundial que decorreu entre 1914-1918, foi de tal modo mortífera que se dizia ser " a guerra para acabar com todas as guerras ".Há um personagem, Mr.Wabash ( protagonizado por John Houseman ), do filme Os Três Dias Do Condor de Sidney Pollack com Robert Redford, Cliff Robertson, Faye Dunaway e Max Von Sidow que diz e cito de memória " ser de uma época em que não havia a veleidade de numerar as guerras ".
Qualquer guerra é sempre um horror e um absurdo sejam quais forem as razões e a História é muitas vezes fértil em mal entendidos como o da rendição e merecido descanso para o dia nove de Abril de 1918 porque os soldados estavam exaustos mas era demasiado tarde.A " Georgette ", a ofensiva alemã, chegaria naquele aziago dia, às quatro e quinze da madrugada e acabaria trinta horas depois.
Todos os nove de Abril, o soldado Coração, já velho, pai e avó de muitos netos, ia ao guarda-fatos, afastava as bolas de naftalina, desencantava um capote parecido com aquele usado pelo Chacal do livro do mesmo nome de Frederik Forsyte para ultrapassar as barreiras da polícia e tentar matar o presidente de França, General Charles De Gaulle, ia à gaveta da cómoda e de dentro da lata que fora de rebuçados, retirava várias medalhas, lustrava as botas, areava a fivela do cinturão e metais vários, colocava o capacete na cabeça e saía todo aprumado e a brilhar para a rua.Ia prestar homenagem aos camaradas caídos em combate.Todos os cinco de Outubro fazia e seguia o mesmo ritual.
Era um verdadeiro embasbacar.Pensavam uns que o velho era maluco e outros que provavelmente o velho estaria bêbado, tão cedo na manhã que despontava.O nove de Abril nem feriado era.Onde iria o diabo do velho assim paramentado e a rigor ? O Coração dirigia-se à Praça do Município e antes de lá chegar ia encontrando quatro ou cinco parceiros de trincheiras barrentas e fedorentas e de partilha de gás de mostarda, ataviados como ele.Era um espectáculo.Subiam a Cinco de Outubro e no Bar Tropical bebiam uns quantos copos de vinho branco fresco que fazia menos mal que terem sido gazeados e tinham a vantagem de não necessitar de usar máscaras anti-gás.Iam parando nas capelinhas todas e à noite quando voltavam as suas casas, depois de um périplo por toda a cidade, perdidos de bêbados.
Se fosse Cinco de Outubro, formavam frente à tribuna de honra aos Paços do Concelho , junto a várias companhias de jovens da Mocidade Portuguesa que já lá estavam desde as oito da manhã; havia discursos, bandeiras de papel verde-rubras, palmas, lágrimas, firme sentido, abrir fileiras , desmaios e sol a rodos.Muito sol.Acabada a cerimónia e depois de mais uma medalha na lapela, os verde garrafa da " bufa " iam para a brincadeira e os velhos soldados para a bebedeira orgulhosamente fardados, numa vã tentativa de esquecer a Flandres e os milhares de camaradas mortos e desaparecidos.
Lembrei-me disto ao ler a notícia da morte, há dias, nos arrabaldes de Paris com cento e dez anos de Lazare Ponticelli que era o último sobrevivente da Grande Guerra e que sem querer, teve honras de herói nacional com direito a funeral militar e salva de tiros, bandeira e flores sobre o caixão.O Soldado Coração nem à bandeira teve direito e em vida teve uma pensão de antigo combatente que dava para morrer à fome.Hoje os historiadores não estão de acordo quanto à justeza ou razões de termos entrado na guerra; uns dizem que nos metemos onde não devíamos outros que a República precisava de consolidação e visibilidade.Não esqueçamos que a Alemanha declarou guerra a Portugal em nove de Março de 1916.
Penso que aquela carne para açougueiro armado de canhões que foram " Os Serranos " do nosso Corpo Expedicionário, treinados à pressa em Trás-os-Montes e levados para uma frente de combate de 55 Km na Flandres para se oporem a oito divisões do 6º Exército Alemão, merecia melhor sorte porque tirando o Monumento dos Combatentes em sua honra, ninguém se lembra deles.Os nossos jovens nem sabem o que foi o 25 de Abril de 74.Sabem que é feriado e já sabem muito.Os leitores talvez e depois de lerem estas linhas, não se esqueçam do NOVE DE ABRIL e façam o favor de fazer os dias felizes...

sábado, 5 de abril de 2008

Conto - Ventos de Mudança - Risler Junior

A condenação do atentado que ceifou as vidas de D.Carlos e do Príncipe Herdeiro D.Luís Filipe é bastante ambígua quando relatada pela imprensa da época e mesmo os monárquicos não se mostraram muito indignados.As sociedades polarizadas entre os que têm muito e os que nada têm, provocam situações extremas e nas quais os povos perdem o respeito por quem os governa; dizia um pensador anónimo que « há mais miséria entre os pobres do que caridade entre os ricos ».

O Rei era pouco popular porque sendo muito tímido, dava uma imagem diferente, parecendo altaneiro, convencido e indiferente aos anseios do povo e isso conduziu ao radicalismo da população lisboeta e dos conspiradores, impulsionando-os a agir em lugar de comer e calar; o Portugal da época de D.Carlos era um estado violento e repressivo no qual se matava gente em simples greves, altercações da ordem pública e motins e eram-no apenas por almejarem leis mais justas ou melhores condições de trabalho, uma vida digna e esperança.Convenhamos.Não era pedir muito.

Entre 1894 e l913 foram executados vinte líderes mundiais e sendo isto sintomático, como poderiam os portugueses estar de fora ? D.Carlos tinha sido um Príncipe feliz e tornara-se num Rei atormentado, amante de boa mesa, caça, mar e apaixonado por Vila Viçosa onde passou a última noite da sua vida; a imagem de abastança, as caricaturas de Leal da Câmara e Bordallo Pinheiro, os dizeres panfletários, o Ultimato Inglês de 1885, a declaração de bancarrota em 1902, os adiantamentos à família real em 1906 e a sua aparência nutrida e anafada em contraponto com a fome que grassava entre o povo, foram o acender do rastilho que conduziu ao seu assassinato.A criação de leis conducentes à deportação para Timor ou Angola dos simples suspeitos de actos contra a Coroa, suspeitos, leu bem, também em nada ajudou.

Nascido aos 28 de Setembro de 1863, casa-se em 22 de Maio de 1886 e é eleito Rei no Centenário da Revolução Francesa e no ano do nascimento de Salazar, 1889.O Mapa Cor-de-Rosa e o revelar das pretensões territoriais entre Angola e Moçambique em favor do nosso País despertaram a Inglaterra, potência mundial que via assim os seus interesses em África ameaçados.

O recuo do Rei perante o Ultimato dos bretões ainda mais incendiou a opinião pública; celebra-se o Tratado de Windsor em 1889 e recebe-se Eduardo VII em 1903, inaugurando-se à pressa o Parque com o mesmo nome " para Inglês ver ", na sua primeira visita oficial para a reconciliação.

O Rei convivia com os eruditos " Vencidos da Vida " que o aceitavam como um dos seus pares embora o não poupassem às críticas.Rafael Bordallo Pinheiro dizia « num País de artistas onde o Rei desenha melhor do que os artistas deviam ser estes a ocupar o trono ».Ou seja, apesar dos erros, tinha imensas qualidades, era culto e amante da modernidade e constatamos isso com factos : primeiros candeeiros eléctricos em Cascais em 1878, primeiro automóvel ( o irmão, Príncipe D.Afonso, o ' Arreda ', foi um grande adepto ) em 1893, os primeiros eléctricos no Porto em 1895 e os ' Aventesmas ', eléctricos de grandes proporções em 1901 em Lisboa e o cinema com a criação do Salão Ideal ( 1904 ) em Lisboa.

Era um atirador exímio e se visitar Vila Viçosa vá ver um alvo com dez impactos em dez tiros na mouche; também Manuel Buíça, ex-sargento expulso do exército e tornado professor o era, infelizmente para o malogrado D.Carlos.

Os regicidas conhecidos foram Manuel Buíça, homem batalhador, genuíno,inquieto, de génio assomadiço, corajoso e pai extremoso e Alfredo Costa, determinado, temperamental e pouco dado a dúvidas e preocupações.Se juntarmos a este caldo um tempero de esquerda, A Carbonária, estão reunidos quase todos os ingredientes para o Regicídio.Supõe-se que haveria mais atiradores espalhados e que os inquéritos terão sido inconclusivos.De carácter simbólico terá sido o local escolhido para o atentado, o Terreiro do Paço/Praça do Comércio, centro do poder reinante.
Na minha opinião D.Carlos teria de ser morto porque em face do seu carácter tornar-se-ia muito incómodo num qualquer exílio e poderia ser um empecilho aos tais ventos de mudança; a história é escrita pelos vencedores.O Rei que tinha sido resgatado ao mar e à morte em criança ( 1873 ) quando arrastado por uma onda na Boca do Inferno em Cascais e salvo pela mãe e por um faroleiro, seria morto a tiro por uma outra ' onda '.
Talvez D.Carlos tenha sido um dos nossos melhores Reis, é minha convicção, porque o conhecimento do passado ajuda a compreender o presente e a construir o futuro.Tivesse ele nascido numa época diferente.Medite e faça os dias felizes.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Conto - Actriz de Mérito - Risler Junior

É sempre reconfortante e meritório qualquer sociedade reconhecer o talento e o empenho de uma qualquer figura pública que se tenha distinguido ao longo da vida a desenvolver trabalho que se reflecte no dia a dia do comum dos mortais e que serve para aligeirar a existência tornando-a mais macia e suportável.O normal é quem quer que seja, ser esquecido muito rapidamente e isto porque o comportamento humano não prima pela gratidão e pela justeza.Dito de outra forma, é mais fácil conjugar o verbo esquecer que o verbo lembrar.Enfim...
Todos nós sabemos que viver não se apresenta fácil neste conturbado mundo e talvez nunca o tenha sido em época alguma porque a vida é dura, tão dura que o mais simples é soçobrar, desistindo.Nem Deus acredita em soluções fáceis e todos já ouvimos dizer a máxima Dele que é « porquê fazer fácil quando posso complicar ».É assim do tipo " magister dixit ", essa é que é essa...
Dezanove anos de trabalho de actor numa produção teatral denominada Dom Quixote, da companhia Ballet Mariinsky de S. Petersburgo na Rússia é obra de meter inveja ao mais pintado.Ter direito a uma festa de despedida é sem sombra de dúvida o reconhecimento dos pares e denota apreço e amizade.Há de facto acções que não têm preço e esta é uma delas.
É verdade.A reforma constituirá sempre o descanso do guerreiro e o encarar com relativa tranquilidade os anos que antecederão " o bater da caçuleta ", o ir " desta para melhor " ou dito de outro modo " o eterno repouso ".Seja lá o que isso for e isso porque que se saiba nunca cá voltou ninguém para o afiançar.
A carreira da actriz de nome Mónika foi dura nesta companhia que era conhecida como Ballet Kirov e estes anos de palco em exibições contínuas deixaram-na extenuada e porque não dizê-lo, completamente derreada.Sabemos no entanto que a gratidão é verde e os burros comem-na o que vem à propósito para o desenrolar da nossa história e não é o caso de Mónika que recebeu duas prendas que muito lhe agradaram e comoveram, suponho.
Dançou uma valsa muito bem acompanhada por um bailarino de eleição e recebeu um saboroso bolo de cenouras confeccionado primorosamente e também todos sabemos como os burros gostam de cenouras.
À burra Mónika de vinte e um anos de idade e com dezanove anos de trabalho vai ser agora permitido descansar; fosse ela um burro-mamão e provavelmente seria repasto gastronómico com autorização passada pelas autoridades competentes que isso de ' meter o dente em carne de burro não é para todos '.Sabe que os burros estiveram à beira da extinção.Tivesse ela menos sorte e serviria de alimento a leões e tigres de um qualquer circo russo e seria outra história.Gosto de finais felizes.
Tivesse ela nascido noutro local e em propriedade de outros donos e teria sido burra de carga ou teria passado a vida " à nora " ou carregada de sacos com as mais variadas matérias; até para ser burro é preciso sorte e não convém esquecer que apesar de tudo o burro é espécie protegida.Confrangedor é haver muitos mais burros de duas pernas.Aliciante em ser burro é sê-lo ao contrário dos bêbados.Sim.Não sabe ? Mais vale ser um bêbado anónimo que um bêbado conhecido.Não percebeu e eu explico : mais vale ser um burro afamado que burro e desconhecido.Já estão a ver a similitude...Não seja burro e faça os dias felizes.