Há alguns dias atrás, nós os que gostamos de fazer da leitura um prazer quotidiano, fomos agradavelmente surpreendidos por uma notícia de jornal que só não passou despercebida porque estamos habituados a ler as letras miudinhas e de pé de página; sim, aquelas que o governo deseja que sejam mais gordas.E nós que já nos habituaramos a elas, impressas nos contratos feitos pelos Bancos e Seguradoras.Que pena...Mais pena sinto porque os nossos governantes que têm bons olhos para nos sugarem os impostos só agora se tenham lembrado de acabar com as letras anorécticas e bulímicas.É que ao fim de todos estes anos a aumentar as dioptrias...Lá estou eu a divagar.
É claro que as letras da penúltima página de um jornal desportivo da nossa praça bem como as da revista de domingo se lêem muito melhor, embora pequenas; deve ser das fotografias que lhes dão um certo colorido.
A notícia em questão dizia respeito a um concurso de misses o que é sempre aliciante para os espectadores masculinos e digno da inveja do feminino que fica sempre com uma pontinha de ciúme ao ver desfilar a concorrência em fato de banho, exíguo, ou de vestidinho de gala.O extraordinário deste concurso é que à miss vencedora não tocará como prémio, um apartamento, uma viagem ou uma viatura topo de gama mas algo bem mais prosaico e útil, de confecção nórdica, mais propriamente da Noruega, uma prótese que dará um jeitão à feliz vencedora que, infelizmente, só tem uma perna tal qual as perdedoras.
Trata-se de um concurso patrocinado pelo governo angolano e pela União Europeia destinado a mulheres sobreviventes da guerra civil que despoletou em Angola em 1975.Esta é a segunda edição e faço votos para que se perpetue e digo-o com um misto de mágoa e contentamento; mágoa porque seria bom que não existisse uma tal competição o que significaria que a época das guerras teria chegado ao fim. Contentamento porquanto aquelas mulheres têm o mesmo direito que as bípedes com ambas as pernas e neste aspecto, esta é uma óptima iniciativa.
Aos vinte anos, como qualquer mancebo em idade de prestar serviço militar, fui para a recruta onde tive aulas que versavam temas como minas antipessoais, anticarro, explosivos, bombas, cocktails molotof e afins.Deitei todos os livros e apontamentos ao lixo na sequência do Onze de Novembro de má memória, não fosse o governo encetar buscas casa a casa e eu não ter argumentos para o facto de ter conservado, tantos anos passados, literatura subversiva e terrorista, embora fornecida legitimamente pelo nosso exército.
É dos jornais que uma mina antipessoal custa cerca de três euros e a mesma mina, numa operação de desminagem pode custar até cem vezes mais ou até custar vidas aos sapadores ou de crianças e pessoas menos avisadas.Quando fiz tropa lidei com minas de vários tipos desde as clássicas até as saltadoras como a " Encrier " que era capaz de cortar uma pessoa ao meio.O ser humano, provavelmente, nunca deixará de me surpreender e quase sempre pela negativa.As minas anticarro eram usadas a preceito, de maneira a não rebentarem à passagem da primeira ou segunda viatura mas à terceira, quando se pensava que não havia minas e então...Buuummm!!!
Como a beleza é um conceito estereotipado e o que é belo para mim pode ser desagradável e uma afronta a um qualquer Papua da Nova Guiné, o que se pretende com este concurso é não mais do que enaltecer a valentia e o orgulho femininos.
Posto isto que vença a mais bonita, mais sexy e sensual e que além da perna postiça, uma das concorrentes vença prémios mais substantivos e já agora que criem uma miss mundo ou miss universo para mulheres com uma só perna.Ou há moral ou comem todas.A votação é feita na Internet.' Bora lá todos votar em massa ' e que ganhe a melhor brasa.
Deixo uma ideia ao artista Morten Traaviu que é o suporte deste concurso.Porque não uma Miss Nua Landmine já na próxima edição? Mentira.Estava só a brincar.Vocês até sabem que não há nada como uma mulher vestida para dar asas à imaginação masculina.Tenham juízo e não deixem de fazer os dias felizes...