quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Conto - Antigamente - Risler Junior

Nesta era digital e dos inventos a metro os mais desavisados, menos informados, indiferentes, desconfiados e cépticos que tomam tudo por adquirido, pensarão erroneamente que todas as modernices e comodismos consumistas existirão desde sempre; sou do contra e desmancha prazeres e vou passar a contrariá-los.
No presente temos o papel higiénico de folha simples, dupla, tripla, reciclado ou não, branco, preto e de todas as cores do arco-íris e até os há personalizados e impressos com figuras de banda desenhada ou efígies de personagens menos queridas como o Bush ou odiadas como o Bin Laden; nunca com a cara do utilizador. Denotaria mau gosto.

Quando miúdo os privilegiados davam um outro uso aos jornais depois de lidos que não iam para o lixo mas transformados em papel " higiénico " o que, dizia-se à época " ensinaria o cu a ler ". Os mais desafortunados faziam-no usando a imaginação. Não ! Não limpavam o dito cujo à dita. Seria difícil, usavam pedras, sabugos de milho, folhas de árvores e plantas, areia, eu sei lá. O leão da anedota perguntava ao coelho enquanto obrava : ' Tu largas pelo, coelhinho branco ? ' Os afortunados papel vegetal do fininho e cortado a preceito. Quem pode pode, já se sabe...

Nos idos de Cincoenta e Sessenta do século passado o sabão era azul ou vermelho e dava para lavar desde a roupa aos corpos. Sim, não havia gel de banho nem shampô e o Life Boy rosado e em barra que se bipartia era usado por muito poucos. O Rexona e por pudor dos sacristas do Estado Novo chamava-se Rexina, era sexualmente menos apelativo mas um luxo de nove em cada dez estrelas; a boazona da Raquel Welsh usava-o. O Eusébio dizia que o sabonete dele era o Life Boy. A Amália usava o Lux.

As carteiras das escolas tinham um tinteiro duplo metido numa ranhura, um para tinta e outro de lixívia para correcções e as canetas eram de pena ou de madeira com aparo amovível; era sujo e uma chatice dobrada para quem aprendia o B A BA. Os alunos tinham pequenas ardósias debruadas a madeira e um regrão da mesma ardósia para a escrita pois as sebentas eram caras e a esferográfica BIC veio revolucionar a escrita com duas escritas à sua escolha, BIC BIC BIC...

Comprar um móvel rádio ou um gira-discos era uma pequena fortuna. Até um rádio de pilhas não era barato e os discos eram em vinil e os gravadores de bobinas de fita, as máquinas fotográficas eram Kodac's ( o velho Mesquita Kodac ficou-lhe com o nome ) e faziam-se tarefas à luz das velas, candeeiros de petróleo ou Petromax com camisinha. Quem não tinha um fogão primo da Hipólito cozinhava a carvão ou lenha e os banhos eram tomados com um chuveiro feito pelo latoeiro ou improvisado de um balde com furos no fundo. Muitos lares nem casa de banho tinham.

Quem vê um pacote de leite pode ser levado a crer que o leite " nasce " empacotado e que o feijão e o grão crescem em latas ou boiões de vidro; no passado o leite era Nestlé, Nido, Suil, fervidos ou posto à porta pelo leiteiro; e o feijão e o grão eram demolhados e cosidos; crianças há que nunca viram uma galinha ou um feijoeiro.

O emprego era para toda a vida e garantia de relógio de ouro e jantar de despedida, hoje é precário, descartável e como não há jantares grátis... nunca ouviu ? Dizem : vá passando por cá e entretanto vá jantar a casa! As casas eram arrendadas, as famílias tinham mais filhos, as esposas fadas do lar a cuidar da prole; hoje compram-se casas sem ter dinheiro, para pagar em cincoenta anos, tem-se um filho ou nenhum e as mulheres mandam às claras que sempre é melhor que mandarem com meias tintas. As malas eram de cartão e colavam-se-lhes rótulos para embasbacar os papalvos e mostrar o quão viajados eram. Hoje viaja-se com mala de pele, Benneton, Louis Vuiton, sem etiquetas porque assim manda o low profile e não convém ostentar; só os patos-bravos, os parvennu ou os chulos é que pensam ser fino pavonearem-se.Tão démodè...

Os aviões eram a hélice e os automóveis à manivela e com radiadores monstros e sempre a aquecerem e bebendo mais água que camelo de beduíno, as bicicletas pesavam como chumbo; hoje temos " Admirável mundo novo " em que o real há muito ultrapassou o imaginário. Qual Júlio Verne, qual Aldous Huxley. Isto não é um mistério. Plagiando personagem de Mário Zambujal " Todo o mistério tem explicação. A explicação é que que pode ser inexplicável ". O mais velho é que sabe...

Os sapateiros faziam reparações e sapatos para pobre e remediado que iam buscar às lojas de curtumes e que vinham abertos e sem solas como bacalhau seco e que à força de sovela, fio ensebado, anilina, calor, agulha e muita habilidade, ganhavam forma; hoje, sapatos à mão só para ricos e os que precisam de reparação vão para o lixo. Até o bacalhau prefere mesa rica e os pobres como o Chitumba, o velho sapateiro da minha infância com o qual me embevecia a ver trabalhar ou o Manuel Sapateiro artesão de mão cheia, já estão num mundo melhor e com mesa mais farta que o pirão de pala-pala ou o peixe seco emalado acompanhados com vinho a martelo, de fruta que não uva ou baptizado.

O Boston da minha infância, alfaiate que confeccionava pijamas, casacos, fatos e camursinas e que só tinha meças no Monteiro Alfaiate e que era também árbitro de futebol gerador de zaragatas na assistência já bem bebida e nos jogadores que eram amadores. Hoje as roupas compram-se feitas, continua-se a beber nos estádios, os árbitros continuam polémicos e os jogadores são profissionais com grande apego ao dinheiro; que se lixe o amor à camisola que não compra carro de marca ou apartamento de luxo...

A explicação estará afinal no próprio genoma humano e qualquer inovação será amanhã obsoleta porque a mente e imaginação humanas não têm limites e os avanços científicos e tecnológicos para o melhor e para o pior estão em velocidade de cruzeiro. É tanta nostalgia que alguns de vós já têm o lenço de papel à mão. E os lenços de pano...chorem nostalgicamente mas não deixem de fazer os dias felizes...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Conto - Génios - Risler Junior

O homem era realmente um crânio e desde bastante novo, quem com ele se relacionou admirava-se com a acutilância dos seus comentários e a argúcia das suas conclusões e opiniões; ' o puto ' irá muito longe se não tresmalhar nos atalhos e escolhos da vida. Com Vinte e Um anos já era formado em informática e tinha arranjado um emprego compatível numa multinacional o que se adivinhava promissor.Era um emprego com futuro. Passados uns tempos foi contratado por um banco que necessitava de um bom informático.

Nesse banco revelou-se um excelente profissional e ajudou a montar o sistema informático o que lhe trouxe rendimentos acrescidos, prémios de produtividade e viagens pagas; entretanto surge um novo banco no mercado que o convidou a chefiar o departamento de informática. Convite aceite de pronto. Parece até aqui uma história enfadonha mas irá ver que mais parece o argumento de um filme. Senão vejamos.

Enquanto desenvolvia o sistema do primeiro banco arranjou um método paralelo para dar largas à imaginação implementando um método a uma caixa automática o sistema debitava a conta bancária em menos dinheiro do que aquele que fornecia. Se pedissem cinco euro a máquina dava cem. Se pedissem dez a máquina pagava duzentos.

Como podemos adivinhar, nos fechos dos ciclos, aquelas máquinas fechavam com dinheiro a menos; coisas de contabilidade e era um verdadeiro quebra-cabeças com a agravante de as perdas irem crescendo e todos sabemos que os bancos e seguradoras não existem para perder dinheiro. Quando aceitou o convite do segundo banco, estendeu o sistema também a este, porque não ? E a sangria aumentou. Agora em dois bancos.

Diz o rifão que Deus escreve direito por linhas tortas e eis que a polícia detém uns quantos estudantes que tinham também um método não tão bem elaborado mas eficaz. Alugavam um quarto de hotel do qual vissem os códigos de acesso quando estava alguém a utilizar a caixa automática e a equipa no terreno roubava o cartão. Era um fartote e o negócio florescera até aquele aziago dia. Para escaparem à prisão e às reprimendas do juiz, aceitaram ser arregimentados para ajudar a deslindar o assunto da nossa história que não dava mostras de solução; afinal não há melhor que um ladrão para apanhar outro...

Mas, vou contar outra história antes de terminar. A Arte Aguça o Engenho. Não é verdade ? Há alguns anos em Paris, na semana da Páscoa e num acesso ao Metropolitano alguém montou um esquema muito engenhoso. Colocou-se um grande cartaz a avisar os circunstantes da abertura para breve de uma nova caixa automática e na Quinta-Feira Santa, após fecho dos bancos, foi a dita aberta ao público; o utilizador dirigia-se-lhe, metia o cartão, discava o código e a solícita da máquina dizia-lhe, educada : " por motivos de Segurança o seu cartão fica retido. Dirija-se ao seu banco. ", enquanto do outro lado os levantamentos se iniciavam. A burla só seria descoberta na segunda-feira e foram muitos os lesados pela imaginação, engenho e génio.

Passaram a pente fino todos os registos e ' eureka ', havia um padrão comum a todas as caixas onde o dinheiro faltava. Quatro cartões de débito associados a duas contas em dois bancos diferentes e a marosca estava descoberta e caçados o criativo e sua consorte. Todo o dinheiro assim desviado estava incólume. Os nossos heróis não tinham gasto um único cêntimo nem faziam tensões de gastar.

Indagado o informático acerca daquele comportamento e motivações respondeu que o que ganhava era suficiente para viver bem. Não precisava dele. Precisava isso sim que a sociedade reconhecesse nele um génio. De que valia ser um tão grande ' artista ' se ninguém lhe reconhecesse a genialidade ? Isso já ele sabia e não lhe chegava. Nos nossos dias há outros métodos como o laço libanês nos quais o larápio usa de delicadeza, boas roupas e um grande sentido de entreajuda na hora de alguém ficar sem o cartão que ele irá usar. Desconfiem de tanta solicitude e como estamos em história com provérbios, fiquem com outro : ' quando a esmola é muita, o pobre desconfia... ' e façam os dias felizes...