sábado, 5 de abril de 2008

Conto - Ventos de Mudança - Risler Junior

A condenação do atentado que ceifou as vidas de D.Carlos e do Príncipe Herdeiro D.Luís Filipe é bastante ambígua quando relatada pela imprensa da época e mesmo os monárquicos não se mostraram muito indignados.As sociedades polarizadas entre os que têm muito e os que nada têm, provocam situações extremas e nas quais os povos perdem o respeito por quem os governa; dizia um pensador anónimo que « há mais miséria entre os pobres do que caridade entre os ricos ».

O Rei era pouco popular porque sendo muito tímido, dava uma imagem diferente, parecendo altaneiro, convencido e indiferente aos anseios do povo e isso conduziu ao radicalismo da população lisboeta e dos conspiradores, impulsionando-os a agir em lugar de comer e calar; o Portugal da época de D.Carlos era um estado violento e repressivo no qual se matava gente em simples greves, altercações da ordem pública e motins e eram-no apenas por almejarem leis mais justas ou melhores condições de trabalho, uma vida digna e esperança.Convenhamos.Não era pedir muito.

Entre 1894 e l913 foram executados vinte líderes mundiais e sendo isto sintomático, como poderiam os portugueses estar de fora ? D.Carlos tinha sido um Príncipe feliz e tornara-se num Rei atormentado, amante de boa mesa, caça, mar e apaixonado por Vila Viçosa onde passou a última noite da sua vida; a imagem de abastança, as caricaturas de Leal da Câmara e Bordallo Pinheiro, os dizeres panfletários, o Ultimato Inglês de 1885, a declaração de bancarrota em 1902, os adiantamentos à família real em 1906 e a sua aparência nutrida e anafada em contraponto com a fome que grassava entre o povo, foram o acender do rastilho que conduziu ao seu assassinato.A criação de leis conducentes à deportação para Timor ou Angola dos simples suspeitos de actos contra a Coroa, suspeitos, leu bem, também em nada ajudou.

Nascido aos 28 de Setembro de 1863, casa-se em 22 de Maio de 1886 e é eleito Rei no Centenário da Revolução Francesa e no ano do nascimento de Salazar, 1889.O Mapa Cor-de-Rosa e o revelar das pretensões territoriais entre Angola e Moçambique em favor do nosso País despertaram a Inglaterra, potência mundial que via assim os seus interesses em África ameaçados.

O recuo do Rei perante o Ultimato dos bretões ainda mais incendiou a opinião pública; celebra-se o Tratado de Windsor em 1889 e recebe-se Eduardo VII em 1903, inaugurando-se à pressa o Parque com o mesmo nome " para Inglês ver ", na sua primeira visita oficial para a reconciliação.

O Rei convivia com os eruditos " Vencidos da Vida " que o aceitavam como um dos seus pares embora o não poupassem às críticas.Rafael Bordallo Pinheiro dizia « num País de artistas onde o Rei desenha melhor do que os artistas deviam ser estes a ocupar o trono ».Ou seja, apesar dos erros, tinha imensas qualidades, era culto e amante da modernidade e constatamos isso com factos : primeiros candeeiros eléctricos em Cascais em 1878, primeiro automóvel ( o irmão, Príncipe D.Afonso, o ' Arreda ', foi um grande adepto ) em 1893, os primeiros eléctricos no Porto em 1895 e os ' Aventesmas ', eléctricos de grandes proporções em 1901 em Lisboa e o cinema com a criação do Salão Ideal ( 1904 ) em Lisboa.

Era um atirador exímio e se visitar Vila Viçosa vá ver um alvo com dez impactos em dez tiros na mouche; também Manuel Buíça, ex-sargento expulso do exército e tornado professor o era, infelizmente para o malogrado D.Carlos.

Os regicidas conhecidos foram Manuel Buíça, homem batalhador, genuíno,inquieto, de génio assomadiço, corajoso e pai extremoso e Alfredo Costa, determinado, temperamental e pouco dado a dúvidas e preocupações.Se juntarmos a este caldo um tempero de esquerda, A Carbonária, estão reunidos quase todos os ingredientes para o Regicídio.Supõe-se que haveria mais atiradores espalhados e que os inquéritos terão sido inconclusivos.De carácter simbólico terá sido o local escolhido para o atentado, o Terreiro do Paço/Praça do Comércio, centro do poder reinante.
Na minha opinião D.Carlos teria de ser morto porque em face do seu carácter tornar-se-ia muito incómodo num qualquer exílio e poderia ser um empecilho aos tais ventos de mudança; a história é escrita pelos vencedores.O Rei que tinha sido resgatado ao mar e à morte em criança ( 1873 ) quando arrastado por uma onda na Boca do Inferno em Cascais e salvo pela mãe e por um faroleiro, seria morto a tiro por uma outra ' onda '.
Talvez D.Carlos tenha sido um dos nossos melhores Reis, é minha convicção, porque o conhecimento do passado ajuda a compreender o presente e a construir o futuro.Tivesse ele nascido numa época diferente.Medite e faça os dias felizes.

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