sábado, 26 de abril de 2008

Conto . A Grande Guerra -Risler junior

Conheci na minha infância, no início da década de sessenta do século passado, o patriarca de uma família de nome Coração, homem de porte orgulhoso, embora cansado pelas andanças e vicissitudes da vida, que infundia respeito aos circunstantes; fora na juventude um dos sobreviventes do Corpo Expedicionário Português, composto por vinte mil homens, que sob as ordens do Comando do 1º Exército Britânico, contribuiu com mais de seis mil mortos e mil e quinhentos desaparecidos e prisioneiros na batalha de La Lys.Uma verdadeira carnificina.
A Primeira Grande Guerra mundial que decorreu entre 1914-1918, foi de tal modo mortífera que se dizia ser " a guerra para acabar com todas as guerras ".Há um personagem, Mr.Wabash ( protagonizado por John Houseman ), do filme Os Três Dias Do Condor de Sidney Pollack com Robert Redford, Cliff Robertson, Faye Dunaway e Max Von Sidow que diz e cito de memória " ser de uma época em que não havia a veleidade de numerar as guerras ".
Qualquer guerra é sempre um horror e um absurdo sejam quais forem as razões e a História é muitas vezes fértil em mal entendidos como o da rendição e merecido descanso para o dia nove de Abril de 1918 porque os soldados estavam exaustos mas era demasiado tarde.A " Georgette ", a ofensiva alemã, chegaria naquele aziago dia, às quatro e quinze da madrugada e acabaria trinta horas depois.
Todos os nove de Abril, o soldado Coração, já velho, pai e avó de muitos netos, ia ao guarda-fatos, afastava as bolas de naftalina, desencantava um capote parecido com aquele usado pelo Chacal do livro do mesmo nome de Frederik Forsyte para ultrapassar as barreiras da polícia e tentar matar o presidente de França, General Charles De Gaulle, ia à gaveta da cómoda e de dentro da lata que fora de rebuçados, retirava várias medalhas, lustrava as botas, areava a fivela do cinturão e metais vários, colocava o capacete na cabeça e saía todo aprumado e a brilhar para a rua.Ia prestar homenagem aos camaradas caídos em combate.Todos os cinco de Outubro fazia e seguia o mesmo ritual.
Era um verdadeiro embasbacar.Pensavam uns que o velho era maluco e outros que provavelmente o velho estaria bêbado, tão cedo na manhã que despontava.O nove de Abril nem feriado era.Onde iria o diabo do velho assim paramentado e a rigor ? O Coração dirigia-se à Praça do Município e antes de lá chegar ia encontrando quatro ou cinco parceiros de trincheiras barrentas e fedorentas e de partilha de gás de mostarda, ataviados como ele.Era um espectáculo.Subiam a Cinco de Outubro e no Bar Tropical bebiam uns quantos copos de vinho branco fresco que fazia menos mal que terem sido gazeados e tinham a vantagem de não necessitar de usar máscaras anti-gás.Iam parando nas capelinhas todas e à noite quando voltavam as suas casas, depois de um périplo por toda a cidade, perdidos de bêbados.
Se fosse Cinco de Outubro, formavam frente à tribuna de honra aos Paços do Concelho , junto a várias companhias de jovens da Mocidade Portuguesa que já lá estavam desde as oito da manhã; havia discursos, bandeiras de papel verde-rubras, palmas, lágrimas, firme sentido, abrir fileiras , desmaios e sol a rodos.Muito sol.Acabada a cerimónia e depois de mais uma medalha na lapela, os verde garrafa da " bufa " iam para a brincadeira e os velhos soldados para a bebedeira orgulhosamente fardados, numa vã tentativa de esquecer a Flandres e os milhares de camaradas mortos e desaparecidos.
Lembrei-me disto ao ler a notícia da morte, há dias, nos arrabaldes de Paris com cento e dez anos de Lazare Ponticelli que era o último sobrevivente da Grande Guerra e que sem querer, teve honras de herói nacional com direito a funeral militar e salva de tiros, bandeira e flores sobre o caixão.O Soldado Coração nem à bandeira teve direito e em vida teve uma pensão de antigo combatente que dava para morrer à fome.Hoje os historiadores não estão de acordo quanto à justeza ou razões de termos entrado na guerra; uns dizem que nos metemos onde não devíamos outros que a República precisava de consolidação e visibilidade.Não esqueçamos que a Alemanha declarou guerra a Portugal em nove de Março de 1916.
Penso que aquela carne para açougueiro armado de canhões que foram " Os Serranos " do nosso Corpo Expedicionário, treinados à pressa em Trás-os-Montes e levados para uma frente de combate de 55 Km na Flandres para se oporem a oito divisões do 6º Exército Alemão, merecia melhor sorte porque tirando o Monumento dos Combatentes em sua honra, ninguém se lembra deles.Os nossos jovens nem sabem o que foi o 25 de Abril de 74.Sabem que é feriado e já sabem muito.Os leitores talvez e depois de lerem estas linhas, não se esqueçam do NOVE DE ABRIL e façam o favor de fazer os dias felizes...

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