sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Conto - A Artimanha -Risler Junior

Esta história passa-se em Angola num passado recente, mais propriamente em 1975; estava-se a ferro e fogo e com os ânimos muito exaltados devido ao cheirinho de independência que pairava no ar. A cidade de Huambo não escapava aos ventos de mudança.Lembram-se concerteza.Era a Nova Lisboa, a tal que seria a capital do império idealizada por Norton de Matos.Voltando à nossa história direi que dois casais estavam em fuga a caminho da África do Sul conduzindo alternadamente uma viatura Ford Taunus 12m pois todos os quatro tinham carta de condução e que nenhum deles a tivesse, problemas não havia porquanto a polícia já não mandava.Mandavam as armas e o importante era o lado em que se estava, do lado da coronha ou da ponta do cano.Era a última esperança daqueles casais.Esperança tinham-na tido quando durante um serão haviam partilhado ideias dizendo que Angola era o futuro deles e dos filhos e que iria ser um belo país; lá belo era...quanto ao futuro, estavam em fuga e a vivê-lo com intensidade e quanto à esperança, estavam a perdê-la com muita rapidez.Munidos de algum farnel, uns quantos garrafões de água e de alguns haveres arrumados à pressa na bagageira do carro tinham encetado a fuga através do mato e fugindo das estradas e dos postos de controlo; sítios havia nos quais era exigido salvo-conduto.Há dado ponto do trajecto, os medos transformaram-se em certezas.Foram mandados parar e coagidos a sair do carro.Todos os quatro.A última a sair foi a senhora grávida de oito meses que perante a ameaça das armas e ao ar assustador dos guerrilheiros, estava tão assustada que só visto.Tremia como varas verdes.Teve de ser ajudada pelo marido antes que alguém lhe partisse os queixos com uma coronhada ou pior.O que parecia ser o chefe, depois de algumas perguntas, aquilatou que havia algum dinheiro entre os quatro e que o Ford embora gasto sempre renderia algum.O lucro seria mesmo muito bom quando comparado com o custo de umas quantas balas.Nem eram pagas por ele.Era tudo lucro.Mandou dois capangas acompanhá-los para um sítio mais afastado e que fossem mortos.Disse-o em dialecto esquecendo-se que havia mais gente a falar e a compreender algumas das línguas nativas.Aqueles quatro fugitivos tinham crescido entre negros e num bairro dos arredores.Sabiam que o destino deles estava traçado.Foram mandados parar.Não tinham andado muito porquanto a grávida mal podia com a barriga e os guerrilheiros tinham mais o que fazer.A uma ordem, sentaram-se.Um dos fugitivos teve uma ideia e perguntou em voz alta se não tinham ouvido tiros.Os guerrilheiros entreolham-se e a um sinal do outro, um deles afastou-se para indagar.Nesse momento os dois homens saltaram sobre o que ficara, tendo-o morto.Acto contínuo e antes que o outro voltasse, puseram-se em fuga. Foram socorridos, passadas duas semanas.Tinham comido o que calhava.Tinham sobrevivido.A criança nascera sã e escorreita.Um dos homens que era orgulhoso da sua farta cabeleira negra, tinha o cabelo todo branco.Branquinho.Tinham salvo a vida.Façam os dias felizes.

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