João Silva era uma pessoa a quem aconteciam as coisas mais mirabolantes e fantásticas.Era caso para dizer que no caso dele, a realidade ultrapassava a ficção.Lembro-me de uma ou outra história que pretendo partilhar convosco.Devia ter cerca de oito anos quando morreu pela primeira vez.Estava ele a dar xutos na sua bola de meia novinha em folha.Novinha a bola porque a meia, essa era rota e já tinha sido tão passajada pela sua avó que tinha mais costura e fios de linha do que tecido da meia original.Não havia naquela época lojas de trezentos e eram poucos os ciganos que as vendiam; custavam caro e eram usadas até ao fim.O nosso João estava a divertir-se e a bola era mesmo boa.Pudera, estava cheia de retalhos e era bem fofa não sendo mole demais nem demasiado dura porque de uma maneira ou de outra, seria mau para os pés descalços.Pois.Descalços.Ter sapatos ou sandálias era luxo maior que ter meias.Enfim...Há dada altura, sem que tivesse sido alvo de alguma rasteira, caiu e ficou como morto.Como morto não; estava mesmo morto de papel passado pelo Delegado de Saúde.Providenciou-se o caixão.Velou-se o corpo num " combaritoco " de estalo com muita comezaina, vinho, aguardente de cana, quimbombo e quissângua.Jogaram-se às cartas.A bebida e a comida corriam a rodos.Era o por em prática de um adágio angolano que diz mais ou menos isto : « O que é bom acaba.O que doi esquece.O que é doce nunca amargou.Como e bebo sim.Porque no outro mundo não há. » A noite foi dando lugar ao amanhecer.Prepararam-se panelas de feijão de óleo de palma, canjica, muzongué iandungo e fritou-se peixe.Fez-se toda esta comida porque um funeral era dia de festa.Comeu-se mais e bebeu-se melhor.O caixão foi posto numa carreta e lá partiu o cortejo fúnebre para o funeral no cemitério do Calundo; lá chegados e como era costume, deu-se primazia às carpideiras mas antes que estas começassem a chorar e no momento em que se abria o caixão, o nosso João levantou-se dizendo " tenhooo fooome! ".Foi a confusão geral.Era ver quem mais corria.Afinal o morto estava vivo e vivo ficou;está tão vivo que tem sessenta anos.O outro episódio teve lugar um pouco antes de cumprir o serviço militar.Regressava ele à casa, de madrugada, quando lhe apareceu à frente o gato mais feio e sinistro que alguma vez tinha visto.Não era um gato normal.Este gato ia crescendo e aumentando de tamanho à medida que se aproximava dele.João estava estarrecido e o caso não era para menos.Estaria a sonhar.Esfregou os olhos.Não era sonho.João que crescera com a mania de ser um Serpa Pinto um Hermenegildo Capelo ou mesmo um Roberto Ivens, tinha por hábito andar com uma catana presa à cinta.Para grandes males grandes remédios.Engolindo o medo, puxou da catana e atirou-se ao bicho como gato a bofe.Acerta uma catanada na cabeça do mostrengo e este caíu de borco como fulminado.Como o barulho fosse muito, começou a acorrer gente que ainda teve ocasião de malhar no bicharoco; este não se mexia.Eis senão quando, o gato começou a transformar-se.O pessoal estava incrédulo e estarrecido.Era bem pior que " Drácula tem sede de sangue", filme que a maioria tinha visto no cinema piolho, na geral.Era assustador.Quando se acabou a transformação acabaram-se as dúvidas.Era um pessoa.Uma velhota.Uma alegada bruxa, especialista nas mais variadas especialidades e tida como kimbanda que dava consultas.Afinal... - Vieram a polícia, o administrador e o chefe de posto com os cipaios e ninguém queria acreditar que a velhota tinha sido abatida quando era um gato grande.Sortilégios, bruxedos, feitiços, encantamentos ? Os espanhóis dizem que não crêem em bruxas mas que elas existem e vocêeeeeee acreeeditaaaa ??? - A última vez que morreu,estava ele na morgue para ser autopsiado.Por qualquer razão desconhecida,talvez por falta de tempo, fora deixado nú em cima da pedra fria e tivera que ficar para o outro dia.De noite acordou e dirigiu-se ao guarda perguntando a razão de alí estar.Este que o fazia morto, por indelicadeza, em lugar de ouvir a pergunta, desatou a correr como se tivesse visto a mulher de branco.Provavelmente estará ainda a correr pois nunca mais ninguém o viu.Buuuuuuuu...Espero que tenham ficado com os cabelos em pé.Façam os dias felizes.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
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