sábado, 23 de fevereiro de 2008

Conto - Soldado Raso - Risler Junior

Esta história passa-se num quartel militar dos arredores de Lisboa; um quartel de grandes proporções e no qual se proporcionava instrução militar a recrutas entre as várias tarefas que todos vocês que fizeram tropa muito bem sabem.Devido à dimensão do quartel, as rondas do oficial de dia ou do sargento de dia eram feitas de bicicleta que se encontravam parqueadas junto a messe dos oficiais.Esta história tem um herói a quem vamos dar o nome de João, pronto e soldado raso.O nosso João era meio amalucado; mesmo passado da marmita.Onde houvesse uma brincadeira, um burburinho ou qualquer confusão, era certo e sabido que ele estava lá.Ele não estava.Era interveniente e protagonista.Certo dia como a manhã estivesse a decorrer enfadonha, João achou que devia temperá-la com alguma animação e vai daí, começa a congeminar um plano.Dirige-se ao gabinete do oficial de dia, bate à porta, perfila-se, apresenta-se batendo uma continência e pergunta : « Sua Senhoria meu capitão não me empresta uma das bicicletas para dar umas voltas ? ».O oficial retorquiu negativamente e dizendo que ele se fosse embora e se deixasse de ideias luminosas.João fez outra continência em sentido, pediu licença para sair, fez meia volta e saiu batendo os calcanhares um contra o outro;era a prova provada de que a ordem unida também resultava com atrasados.No exterior avançou para o plano B.Montou a bicicleta e naquele dia ninguém mais o viu.Tanto pior para o sargento, pensou o capitão, que se lixe; as minhas rondas serão feitas de bicicleta.Ele que vá a pé. Chegou a hora do arriar da bandeira.O espanto era geral.A soldadesca, em sentido e apesar da solenidade do acto, continha o riso a muito custo.Em lugar da nossa bandeira verde rubra, o mastro ostentava o desaparecido velocípede.Ainda bem que se não desmancharam a rir.O capitão não achou nenhuma piada nem o nosso herói quando ao ler a Ordem de Serviço constatou que tinha apanhado dez dias de detenção.Mais uma nódoa vermelha na caderneta militar mas para que precisava ele da caderneta e além disso dizia-se que as porradas não eram feitas para os cães.Ia usar aqueles dez dias para descansar.Não faria faxinas às casas de banho ou à cosinha nem faria plantões à caserna.A vida assim era uma maravilha.Ele até encarava o castigo como uma condecoração.Tempos depois e na sequência de exercícios com arma e levando a G3 a tiracolo, cruza-se com o major capelão.João não sabia se tinha de fazer ombro arma, apresentar arma ou fazer uma continência.Afinal a ordem unida não tinha resultado plenamente. Atrapalhado, poisa a arma no chão e lembrando-se das aulas de catequese e que estava perante um padre, faz o sinal da cruz, benzendo-se.Ora toma ! - O capelão nem queria acreditar no que os seus olhos viam e olhem que já tinham visto coisas incríveis nas duas comissões que fizera no ultramar, ficou furioso mas a fama de maluco do nosso artista, precedia-o.O capelão era padre, não santo e era major.O posto falou mais alto que a voz do Senhor e pespegou-lhe um estaladão bem assente nas trombas.Uma acção vale mais que mil palavras.A última vez que o vi, ia escoltado pela polícia militar a caminho do presídio militar.Tinha-se metido em asneiras maiores que não interessam à nossa história.Ao ver-me, aclarou a voz e disse alto e bom som : arranja-me droga para fumar porque vou ficar muito tempo à sombra e sempre fico mais alegre.Como se ele precisasse de alguma coisa para o alegrar.Alegre era ele e vejam onde a alegria o ia levar.Os PM ainda olharam para mim de viés.Encolhi os ombros.Fui visitá-lo uma ou duas vezes à prisão e nunca mais o vi.Façam os dias felizes.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O seu comentário e a sua crítica são importantes; não se esqueça de o emitir.