António Augusto Amaral era um nome que nada dizia a quem quer que fosse mas se falassem no Triplo A, toda a gente o conhecia; algumas vezes até pelas piores razões.Acontecia que Triplo A, não tendo má bebida, tinha muito má memória para pagar nas tascas e botequins os consumos que ficava a dever.Em regra as suas dívidas iam parar à gaveta das contas incobráveis.Entre os vários dons que possuía quando estava sóbrio, o que era raro, era um óptimo mecânico de automóveis.Não podia ingerir nenhuma espécie de álcool se o cliente quisesse a viatura arranjada com alguma celeridade.Quando estava ébrio era um bom contador de histórias;era ainda exímio em arranjar confusões e sair delas como se as não tivesse iniciado.No geral não tinha ' mau vinho '.Sentia muito sono com o excesso de bebida ou sentia uma grande vontade de contar histórias.Estava a esquecer-me da outra razão do seu ' petit nom '.Quando já estava bem bebido, gostava de pedir um ' brandy ' de cada uma das marcas que conhecia e a ordem da ingestão era arbitrária ou seja, fazia-se servir de Neto Costa, L 34 ou Constantino.Este último cuja fama vinha de longe.Não faço a mínima ideia do porquê desta mania.Corria uma história de um dia em que estava sóbrio e que pedira na tasca um Constantino; este brandy tinha acabado e o dono da tasca havia posto outro brandy na garrafa sem a encher.Triplo A cheirou-o e disse que tinha pedido um Constantino e não um Neto Costa.Perante isto o comerciante convidou-o a beber, dizendo que aquela bebida era por conta da casa.Era um connaisseur.Os miúdos quando o viam, rodeavam-no e pediam uma história; muitas vezes até se cotizavam para comprar uma garrafa de tinto à qual não se fazia rogado porque tinha sempre muita sede e gostava de ter audiência.Garrafa em riste porque o tinto aclara a garganta e libertava a veia de contista.Dizia que os cães da pradaria perseguiam até os carros dos caçadores pelas pradarias.Que eram tão ferozes que até mordiam os pneus.Que faziam tudo em matilha e que tinham um líder e uma hierarquia a qual respeitavam como os soldados de um regimento.As nossas bocas abriam-se de pasmo.Dizia que um falcão mergulhava de asas cerradas para apanhar um pombo verde ou um coelho e que atingia velocidades próximas dos 160 Km/Hora e que até conseguia mudanças de direcção.Que tinha uns olhos tão apurados que notava o mínimo movimento das presas a vários quilómetros de distância.Nós dizíamos que não podia ser e que era impossível.Era uma risota pegada.Podia lá ser verdade.Que os gorilas na selva profunda acasalavam com mulheres que roubavam das aldeias às quais ofereciam flores, frutas e frutos silvestres e acepipes vários.E nós « pode lá ser ».Era uma verdadeira delícia.As crianças cresceram e tornaram-se homens e mulheres e nos dias de hoje, com a proliferação dos programas de televisão constatamos que ele não terá mentido na maioria das histórias que nos contava.Talvez ele fosse leitor dos almanaques da Bertrand, da Vida Mundial, da Reader's Digest ou dos livros do Stefan Zweig ( sim, aquele austríaco que escrevia sobre tudo e que se suicidou no Rio de Janeiro, abalado pelo horror da segunda grande guerra ).Isso não o sabia na altura nem o sei hoje.Quando garotos só tínhamos a rádio e de quando em vez um cineminha onde as " Actualidades " e o " Assim vai o Mundo " nos deslumbravam.Hoje ninguém conta histórias como o Triplo A contava.A nossa concentração e atenção eram muitas e o deslumbramento maior ainda; era como se o mundo parasse de girar para ouvir também as histórias e se maravilhar com o nosso ar maravilhado. Como dizia um cómico brasileiro « e a saudade... ».Eu acrescentaria que a saudade é tanta que até magoa.Façam os dias felizes.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
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