quinta-feira, 6 de março de 2008

Conto - Malaquias e Agapito - Risler Junior

Malaquias e Agapito eram amigos de longa data e viviam num enorme parque nacional rodeados de muitas plantas e árvores centenárias;leu bem, eram duas árvores.Malaquias era um pinheiro com duzentos anos, nascido no mesmo dia em que o Príncipe Regente de Portugal, futuro D.João VI chegava a Baía no Brasil fugido às tropas desse cabo-de-guerra que era Napoleão Bonaparte.Era o dia 22 de Janeiro de 1808.Curiosamente Agapito havia nascido exactamente cincoenta e quatro dias antes e digo isto porque a data do seu nascimento coincidiu com a fuga do Regente, da esposa D.Carlota Joaquina mais conhecida por ' A Megera ', pela Rainha D.Maria que já não batia bem da carola e cerca de 1500 membros da Corte portuguesa que numa viagem atribulada aportaram ao Brasil carregados de algumas riquezas que era urgente serem retiradas do país.Como dizem os historiadores eles aportaram carregados também de piolhos, pulgas e afins e de um pivete descomunal o qual não era estranho ao Regente porquanto o primeiro banho de corpo inteiro que tomou foi com a idade de cincoenta anos e mesmo esse banho foi por recomendação do médico, tal era a comichão e o mal estar em que se encontrava.Para sermos precisos diremos que o Malaquias era um pinheiro do norte da Europa.Mas, que raio, como é que um pinheiro importado do norte da Europa, o Malaquias e um sobreiro alentejano, o Agapito coabitavam no mesmo espaço geográfico ? - A resposta é muito simples e nada tem de misterioso porquanto havia um terreno que estava a ser resflorestado e muitas árvores e plantas de algumas partes do mundo foram trazidas para Portugal e ainda hoje existem e são uma maravilha.« É do conhecimento de todos que os humanos são uns usurpadores no tocante a nomes; ignoro a razão de terem nomes como Pinheiro, Cerejeira, Pessegueiro, Pereira e por aí fora.Já não bastava usarem-nos de todas as maneiras possíveis e tinham ainda de nos roubar os nossos queridos nomes » dizia o Agapito ao seu amigo Malaquias em tom de desabafo. « Pois sim» dizia o Malaquias « um rei que mal chegara ao Brasil e logo mandou pintar nas casas as letras P.R. ( ponha-se na rua ), que a Corte precisa destas casas.Um verdadeiro ditador e um déspota, essa é que era a verdade ».Claro que o Malaquias bem sabia que as iniciais queriam dizer ' Príncipe Regente ' e que o povo, a falta de melhor, brincava e dava-lhes outro significado ao que o Agapito retorquía que D.João tinha de alojar o séquito e com urgência e sempre foi dizendo que era melhor encarar a permanência da Corte no Brasil pela positiva e constatar que naqueles treze anos, o Brasil se tinha transformado para melhor, unido, desenvolvido e com fronteiras inalteradas como uma nação. « Pois pois » casquinhava o Malaquias « enquanto nós em Portugal tínhamos frio e fome de sobra e morríamos que nem tordos; nem sei dizer quem eram os maus.Se os franceses nossos inimigos se os ingleses, os nossos amigos, ou o Regente que se pôs em fuga dando ordens de rendição e não agressão às tropas francesas ».O Agapito respondeu contemporizador « deixa lá.Isso são águas passadas e foi um martírio que já está ultrapassado ».O Malaquias sempre foi dizendo que tinham morrido centenas de milhar de pessoas à fome e à míngua e que nem pão havia devido às ideias luminosas de se queimarem as cearas para os franceses não terem pão.« Nem eles nem nós » respondia o Agapito. « Oh puto sabes que mais, o melhor é ficarmos por aqui e olha que aquilo que nos une é mais forte do que aquilo que nos separa » disse o Agapito para finalizar a conversa. « Isso é que era bom.À conta da retirada da Corte, tivemos mais fome e miséria com a guerra civil devido ao regresso do brasileiro D.Pedro IV e às ideias liberais e absolutistas. Nunca tivemos falta de fome e de miséria » disse o Malaquias.Em 2008 não estamos melhor, diria eu; basta estar atento às notícias e verificar que um quinto dos portugueses vive na pobreza e que muitos deles, a partir de meados do mês só têm pão para comer e de quem é agora a culpa ? - Façam os dias felizes.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O seu comentário e a sua crítica são importantes; não se esqueça de o emitir.