O herói desta história é um espanhol, nascido na Galiza, que veio para Portugal ainda criança, acompanhando os pais que procuravam uma vida melhor e que por cá foi crescendo.O Cubano, como era conhecido, embora se pudesse naturalizar, nunca o havia feito e dizia que espanhol tinha nascido e espanhol havia de morrer.
Aos dez anos já espalhava panfletos de propaganda contra o regime de então e aos vinte era militante de um partido da esquerda, com muito traquejo em comícios e manifestações de rua; é um episódio ocorrido numa dessas manifestações que passarei a contar.O Partido do coração marcou uma manifestação e no dia aprazado foram chegando a uma praça da capital os militantes, os simpatizantes, os curiosos e a polícia de choque.
Como de costume a polícia de choque parece nem dormir porque ainda o dia mal despontava e várias viaturas foram aparecendo, umas com polícias e outras com uma parafrenália de coisas que seriam usadas nas barreiras.Os polícias, façanhudos como só eles aparentam ser, foram-se posicionando num local previamente escolhido.Quando os primeiros manifestantes e curiosos começaram a aparecer, já os polícias estavam formados e equipados de viseiras, bastões e escudos´.
Foram abertas as hostilidades e foram sendo ditas as primeiras palavras de ordem e proferidos os primeiros apupos.O Cubano, de seu nome João, chegou numa dessas levas.Posicionou-se do lado oposto junto aos camaradas e usando de bom senso colocou-se ao lado de um coxo.Dizia de si para si « este é um bom sítio, se as coisas derem para o torto, sempre consigo correr mais rápido do que ele e se alguém tiver que apanhar umas cacetada, que seja o cabrão do coxo ».
Como era um bom estratagema, sentindo-se seguro, também ele abriu as hostilidades e começou a provocar um polícia de choque.Chamou-lhe nomes e insultando-o ia dizendo « estava mesmo a apetecer-te dar umas bordadoas hein, cabeça de martelo ? Tens cá umas trombas! Gostava de te dar umas bolachadas nessa cara de parvo ».Claro que o chui não tugia nem mugia mas notava-se que não se importaria nada de molhar a sopa.Principalmente naquele artolas provocador, o nosso Cubano.Era ponto de honra não saírem do quartel, em vão.Ao menos para experimentar os novos bastões e partir algumas cabeças.Aborrecido era o comandante não anunciar o início da ' festa '.
O momento aguardado com ansiedade surgiu quando num vozeirão o comandante da força proferiu as palavras mágicas : à Caaaarrrgggggaaaa ! A polícia avançou com ganas e o tal chui tinha um alvo fixado, o Cubano; este desatou a correr e qual não foi o seu espanto ao verificar que o coxo corria muito mais que ele.Parecia movido a turbo e o polícia começou a descarregar fúria nos costados do nosso herói e amassou-o de tal forma e com tal veemência que o Cubano desejou estar noutro lado.No melhor plano cai a nódoa, essa é que essa.
O Cubano esteve perto do " flic ", demasiadamente próximo e a prova foram as medalhas que ficaram a marcar-lhe o corpo sobre a forma de equimoses, nódoas negras e algum sangue que escorria dos ferimentos na cabeça.Tinha sido mimoseado e mais do que teria imaginado.Uma coisa era certa.Com aquela proximidade, tinha fixado as feições do polícia e ele que aguardasse.Não ia perder por esperar.
Foi indagando e soube que o polícia parava muitas vezes num boteco perto do quartel onde, na companhia dos amigos, bebia uns quantos copos e comia uns petiscos.Elaborou um plano e tratou de pô-lo em prática.Comprou uma gaiola e cem gramas de alpista para canários.Agarrou na alpista e de gaiola na mão dirigiu-se ao local do " rendez vous ".
Entrou no boteco e pediu um taça de branco e um pastel de bacalhau porque se a vingança dá alguma sede, o antecipá-la estava a dar-lhe fome. Comeu o pastel e bebeu um gole de vinho. E outro ainda para aclarar a voz. Dirigiu-se ao polícia que estava sentado e colocou com displicência a gaiola em cima da mesa. Meteu a mão no bolso e sacou da alpista e começou a alimentar o pássaro imaginário.
« Não bebas sem comer, canarinho. Come um pouco desta alpista que te trago. » É claro que toda a gente ficou a olhar para ele como se de um maluco se tratasse. O Cubano, que ainda trazia as marcas do amor policial, não se intimidou e acrescentou, encarando o ' canário ' : « eu também comi umas cacetadas mas tu, que nem cantar sabes, nem esta alpista mereces e fica a saber que eu sou mais livre do que tu e que para a próxima, vais comer muito mais do que alpista ».
O polícia corou, percebendo a jogada e a assistência riu-se a bandeiras despregadas, compreendendo a intenção; quem não achou graça foi o polícia-de-choque-em-tempo-de-folga, ficando mais vermelho que um pimentão doce e sem palavras para retorquir. « Tu não és livre porque é um infeliz pau mandado, canarinho lindo » e dizendo isso poisou a alpista na mesa, fez uma vénia e declarou : « este canário é para si, Senhor Agente ».Ainda a galhofa se fazia ouvir e já o Cubano abandonava o boteco a caminho de casa.Faça os dias felizes.
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