domingo, 23 de março de 2008

Conto - Liberdade e Gratidão - Risler Junior

Diz-se que só valorizamos a liberdade quando a perdemos.Talvez devido ao hábito de nós, humanos, darmos tudo por garantido e esquecermos como foi difícil ganhá-la e o quão fácil é perdê-la.Talvez seja muito mais fácil ficar sem ela até porque nem sempre sentimos gratidão por quem lutou e se sacrificou para a conquistar.Somos uns ingratos. Um certo político afirma que " há muita falta de memória " e como disse um pensador " Uma Nação de Ovelhas Dá Lugar a Um Governo de Lobos ".
No reino das aves, esses seres que nos alegram a existência quando cantam em liberdade ou o fazem presos em gaiolas, não se passa assim; talvez elas tenham valores que nós desprezamos e é pena.Sabiam que se apanharem uma cria de Pintassilgo e a forem criando numa gaiola nas proximidades do sítio da captura, são os próprios pais que lhe dão umas bagas muito apetecíveis mas venenosas para que as crias morram .
É o aplicar do conceito muito humano " liberdade ou morte ".Acho que os progenitores Pintassilgos o levam demasiado longe mas, preferem ver um filho morto do que vê-lo crescer anafado e gordo, sem liberdade.
O termo " gratidão " conduz a uma história que vivi na primeira pessoa; certo dia e no exercício de funções laborais, estava eu a ler o jornal num stand de vendas, quando fui surpreendido pelo piar aflitivo de um Pisco que dava às asas com muita força e parecia querer que eu reparasse nele.Intrigado, poisei o jornal e levantei-me da secretária dirigindo-me à porta levado apenas pela intuição e curiosidade.
Lá chegado, o pássaro fugiu em alvoroço sem ir para muito longe e continuando na chinfrineira.« Estranho » pensava eu.Estava nestas cogitações quando reparei que estava um passarinho ainda imberbe e de asitas pouco guarnecidas, no vão das escadas do prédio em construção.Olhando à volta constatei que ele havia caído de um ninho que já me tinha despertado à atenção , anteriormente , devido às idas e vindas dos construtores carregados de palhinhas e galhos.
Como o ninho estava muito alto, providenciou-se uma grande escada e depois de alguns malabarismos e equilíbrios periclitantes, dignos de funambulistas de circo, consegui devolver o fugitivo ao recesso e aconchego do lar paterno; eis senão quando e já de regresso à leitura, oiço e reparo no bater de asas e no chilrear do Pisco que pairava em voo como que a agradecer a prestimosa ajuda que lhe havia proporcionado.Eu, que me comovo com tudo, fiquei estupefacto com aquele comportamento.Seria gratidão ?
Os antigos dizem que os Tentilhões morrem ao mais pequeno susto porque têm o coração fraco.Não será medo de perder a liberdade ? Lembro-me de em garoto ter visto um casal de aves a construir um ninho ao longo dos dias e embora criança, ter achado que o sítio não seria o melhor por ser num local desabrigado.Como sabem a natureza não quer saber de desgraças, gratidão ou liberdade.Semanas volvidas e já com filhotes no ninho, este não tinha sombra e afianço que sob um sol escaldante e inclemente, ambos os progenitores se revezavam pairando sobre o ninho para projectar sombra, numa tentativa de os salvar pondo em risco a própria vida.
O Rouxinol que tão bem canta e melhor oculta o ninho nos silvados, abandona-o se notar que mais alguém senão ele, conhece a sua localização e outras aves como o Pintarroxo são as primeiras a denunciar a sua presença parecendo não se importarem.O Cuco prefere roubar os ninhos dos outros.A Pega rouba tudo o que pode e tenha brilho.O Gaio imita na perfeição as outras aves e até a quem diga que são como papagaios a imitar os humanos.
A liberdade tem um preço por vezes demasiado alto e digo que podemos sempre ir olhando à nossa volta e observar com atenção o comportamento dos " irracionais " para nos vermos a nós próprios e nos lembrarmos daquilo que nunca devíamos ter esquecido.Façam os dias felizes.

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