quinta-feira, 6 de março de 2008

Conto - Cinturão Negro - Risler Junior

Quando a viatura parou a pouca distância da caixa multibanco era evidente que o condutor não podia abandonar a viatura nem estacioná-la correctamente porque não tinha onde; após um breve diálogo, a porta do pendura abriu-se e uma jovem senhora em estado adiantado de gravidez, encetava preparativos para dela sair com esforço e algum desconforto.Fazendo das tripas coração, iniciou a marcha com dificuldade em direcção à máquina tão almejada que ficava num banco ao virar da esquina e fora das vistas do marido que ficara no automóvel.A jovem senhora coloca-se na fila e aguarda pacientemente pela sua vez. Ninguém se tinha virado e ninguém vira portanto que ela estava grávida para lhe ceder a vez, a não ser um jovem adulto com olheiras e muito mau aspecto que se postou atrás dela para levantar dinheiro, embora não tivesse dinheiro nem tampouco cartão multibanco.Ou seja ele queria dinheiro, era uma certeza pois o último chuto na veia tinha sido há quase dois dias num pardieiro para os lados do Casal Ventoso e era premente que tomasse outra dose o quanto antes.Ele já nem via e as dores e espasmos que sentia, começavam a ser insuportáveis.Tinha de arranjar algum para chutar na veia.Quando se colocou atrás da grávida, fingindo ser mais um utente e enquanto aguardava, bolou um plano de ataque.O plano A, consistia em roubar aquela grávida desamparada e desavisada. « Que melhor alvo poderia ele ter encontrado? Ela estava mesmo a pedir que a assaltassem. Vendo bem, até parecia que tinha um cartaz na testa com os dizeres ( próxima vítima - assaltem-me que sou inofensiva ) ». Pensava ele de si para si com a última réstia de miolos que sobrava das quantidades de droga que já tinha tomado. O espírito estava embotado mas o corpo precisava de droga. « Que se lixe ! ».E quanto ao plano B, esse que se lixasse, porra! « Uma mulher e ainda por cima grávida.Deus deve mesmo existir e mandou-me este anjinho da guarda ».O indivíduo que estava à frente da grávida, fez o que tinha a fazer e foi à vida dele.Era chegada a vez da grávida que avançou com o cartão na mão.Diz-lhe o drogado : « Oh cheinha, levanta também dinheiro para mim ou espeto-te esta seringa infectada e para que saibas eu tenho SIDA ».A jovem senhora nem queria acreditar e com olhos esbugalhados, com mais medo da criança que trazia no ventre do que com ela própria, lá conseguiu balbuciar « nem penses nisso.Se queres dinheiro vai trabalhar, malandro ».Palavra puxa palavra e o diálogo foi decorrendo.Um queria dinheiro e outra não queria dar.O marido, achando que a demora era muita mas preocupado com a esposa, abandonou mesmo o carro e dirigiu-se ao banco.Quando lá chegou, estava a grávida com o salto do sapato a pressionar as goelas do drogado que jazia, aflito, esparramado no chão.Costuma dizer-se que um dia é do caçador e que outro é da caça.Naquele dia a caça tinha batido aquele aos pontos.A vítima indefesa, o anjinho da guarda enviado por Deus, não era anjinho nenhum,era campeão nacional de judo e com um golpe certeiro tinha derrubado mais um adversário e este, coitadinho, nem fazia ideia do oponente que tinha tido à sua frente.Tivesse ele um Plano B e mesmo esse não teria resultado ou seja como plano de recurso, devia ter escolhido outra vítima.Lá veio a GNR e lá foi o nosso drogado dar gritos para o Governo Civil porquanto era sexta-feira e o tribunal só o ouviria na segunda e de preferência sem gritos porque os juízes já ouviram tantos que não se comovem.Façam os dias felizes.

Sem comentários:

Enviar um comentário

O seu comentário e a sua crítica são importantes; não se esqueça de o emitir.