quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Conto - O Homem que Gostava de Plantas -Risler

Há uns anos atrás li um livro sobre um matemático, Paul Erdoz, cujo sobrenome se lê de maneira curiosa ( er-dish ) e tinha a particularidade de gostar mais de números do que de pessoas, minto, até gostava muito de criancinhas mas, como não tinha um minuto a perder, não podia ter família; o livro chama-se " O Homem Que Só Gostava de Números ".Curiosamente, a nossa história de hoje é acerca de uma pessoa que gostava muito de plantas e também não gostava particularmente de pessoas.Nem de crianças.Segundo ele, as pessoas são muito complicadas e muito complexas e torna-se muito difícil investir em amizades e cumplicidades que podem sempre revelar-se passageiras.O amigo de hoje pode sempre tornar-se numa decepção amanhã enquanto as plantas são fiáveis e pouco exigentes.O que podem uma planta, um arbusto ou uma árvore pedir em troca da amizade que nutre por nós ? - Um pouco de água com regularidade, algum adubo e um local iluminado pelo sol; pouco mais.Erdoz tinha pouco mais de dez anos quando aprendeu a atar os atacadores dos sapatos e aos vinte e um, barrou a primeira torrada com manteiga mas na matemática, este húngaro, era um verdadeiro génio.Aos três anos já fazia matemática e tratava os números primos por tu.Nos vinte e cinco últimos anos de vida que terminou aos oitenta e três anos,trabalhava dezanove horas por dia alimentado apenas a café expresso e pastilhas de cafeína.As plantas nossas amigas, apanham sol durante o dia e libertam o oxigénio para todos nós durante a noite.Voltando ao homem que só gostava de plantas sempre posso dizer que ele falava com elas em voz alta, fazia-lhes festas e dava-lhes mimos.As plantas eram suas confidentes e verdadeiras amigas; nunca houve alguma que fosse inconfidente.Elas respeitavam-no incondicionalmente e estavam sempre alegres na sua companhia e ele nutria por elas um amor e uma confiança inatacáveis.Conta-se que um dia, houve um crime de morte num escritório de advogados.Este advogado tinha no seu gabinete uma linda planta envazada à qual dedicava verdadeira afeição;era de tal forma que nos períodos de férias, levava-a a passear com a família.A morte deste advogado era um verdadeiro quebra-cabeças porquanto não havia pistas que conduzissem ao assassino ou que indicassem o móbil do crime.Não tinha desaparecido nada de valor.O inspector encarregue deste caso era amigo de copos e folguedos do nosso amante de plantas e entre algumas cervejas e umas moelas fritas, contou-lhe a história, lamentando-se que não conseguia solucionar o caso.Sabendo o amante de plantas toda a história, disse « tenho uma ideia, queres -la em prática ? ».Como o inspector concordasse, aprazou-se o dia e fizeram-se todos os preparativos.Foi aplicado um eléctrodo à planta e feita a ligação a um instrumento de registo, como aqueles dos electrocardiogramas.Todas as pessoas que tinham estado naquele gabinete, foram postas em presença da planta e a máquina ia registando as sensações desta.Há dada altura e na presença do criminoso, a planta reagiu " assustada e em pânico ".A polícia trabalhou esta inusitada pista e o facínora acabou por confessar; tinha sido denunciado por uma planta.Para Erdoz, Deus era o Supremo Fascista, O Tipo Número Um Lá Em Cima;tinha má ideia de Deus.Para o nosso amante de plantas Deus só podia ser planta.Lembro-me, dizia ele, que se na savana africana por exemplo as girafas começarem a comer os ramos mais viçosos das acácias, estas têm uma reacção imediata.As raízes emitem toxinas venenosas que são espalhadas por toda a árvore para provocar dor em quem as ataca.As girafas param de comer quando acham que o veneno está a chegar as folhas.Como diz Richard Dawkins é a corrida aos armamentos.Se apararmos a relva do nosso jardim, esta emite toxinas venenosas porque acha que está um animal a comê-las.Dizia ainda a finalizar que todos os animais da Terra, incluíndo o homem são uns verdadeiros parasitas das plantas e que só havia existência animal porque as plantas permitiam e aduzia que vista da estratosfera, a Terra era verdadeiramente um planeta verde e que ninguém o convenceria do contrário.Deus só podia ser planta ou então alguém que gostava muito de plantas.Façam os dias felizes.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Conto - Triplo A - Risler Junior

António Augusto Amaral era um nome que nada dizia a quem quer que fosse mas se falassem no Triplo A, toda a gente o conhecia; algumas vezes até pelas piores razões.Acontecia que Triplo A, não tendo má bebida, tinha muito má memória para pagar nas tascas e botequins os consumos que ficava a dever.Em regra as suas dívidas iam parar à gaveta das contas incobráveis.Entre os vários dons que possuía quando estava sóbrio, o que era raro, era um óptimo mecânico de automóveis.Não podia ingerir nenhuma espécie de álcool se o cliente quisesse a viatura arranjada com alguma celeridade.Quando estava ébrio era um bom contador de histórias;era ainda exímio em arranjar confusões e sair delas como se as não tivesse iniciado.No geral não tinha ' mau vinho '.Sentia muito sono com o excesso de bebida ou sentia uma grande vontade de contar histórias.Estava a esquecer-me da outra razão do seu ' petit nom '.Quando já estava bem bebido, gostava de pedir um ' brandy ' de cada uma das marcas que conhecia e a ordem da ingestão era arbitrária ou seja, fazia-se servir de Neto Costa, L 34 ou Constantino.Este último cuja fama vinha de longe.Não faço a mínima ideia do porquê desta mania.Corria uma história de um dia em que estava sóbrio e que pedira na tasca um Constantino; este brandy tinha acabado e o dono da tasca havia posto outro brandy na garrafa sem a encher.Triplo A cheirou-o e disse que tinha pedido um Constantino e não um Neto Costa.Perante isto o comerciante convidou-o a beber, dizendo que aquela bebida era por conta da casa.Era um connaisseur.Os miúdos quando o viam, rodeavam-no e pediam uma história; muitas vezes até se cotizavam para comprar uma garrafa de tinto à qual não se fazia rogado porque tinha sempre muita sede e gostava de ter audiência.Garrafa em riste porque o tinto aclara a garganta e libertava a veia de contista.Dizia que os cães da pradaria perseguiam até os carros dos caçadores pelas pradarias.Que eram tão ferozes que até mordiam os pneus.Que faziam tudo em matilha e que tinham um líder e uma hierarquia a qual respeitavam como os soldados de um regimento.As nossas bocas abriam-se de pasmo.Dizia que um falcão mergulhava de asas cerradas para apanhar um pombo verde ou um coelho e que atingia velocidades próximas dos 160 Km/Hora e que até conseguia mudanças de direcção.Que tinha uns olhos tão apurados que notava o mínimo movimento das presas a vários quilómetros de distância.Nós dizíamos que não podia ser e que era impossível.Era uma risota pegada.Podia lá ser verdade.Que os gorilas na selva profunda acasalavam com mulheres que roubavam das aldeias às quais ofereciam flores, frutas e frutos silvestres e acepipes vários.E nós « pode lá ser ».Era uma verdadeira delícia.As crianças cresceram e tornaram-se homens e mulheres e nos dias de hoje, com a proliferação dos programas de televisão constatamos que ele não terá mentido na maioria das histórias que nos contava.Talvez ele fosse leitor dos almanaques da Bertrand, da Vida Mundial, da Reader's Digest ou dos livros do Stefan Zweig ( sim, aquele austríaco que escrevia sobre tudo e que se suicidou no Rio de Janeiro, abalado pelo horror da segunda grande guerra ).Isso não o sabia na altura nem o sei hoje.Quando garotos só tínhamos a rádio e de quando em vez um cineminha onde as " Actualidades " e o " Assim vai o Mundo " nos deslumbravam.Hoje ninguém conta histórias como o Triplo A contava.A nossa concentração e atenção eram muitas e o deslumbramento maior ainda; era como se o mundo parasse de girar para ouvir também as histórias e se maravilhar com o nosso ar maravilhado. Como dizia um cómico brasileiro « e a saudade... ».Eu acrescentaria que a saudade é tanta que até magoa.Façam os dias felizes.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Conto - Soldado Raso - Risler Junior

Esta história passa-se num quartel militar dos arredores de Lisboa; um quartel de grandes proporções e no qual se proporcionava instrução militar a recrutas entre as várias tarefas que todos vocês que fizeram tropa muito bem sabem.Devido à dimensão do quartel, as rondas do oficial de dia ou do sargento de dia eram feitas de bicicleta que se encontravam parqueadas junto a messe dos oficiais.Esta história tem um herói a quem vamos dar o nome de João, pronto e soldado raso.O nosso João era meio amalucado; mesmo passado da marmita.Onde houvesse uma brincadeira, um burburinho ou qualquer confusão, era certo e sabido que ele estava lá.Ele não estava.Era interveniente e protagonista.Certo dia como a manhã estivesse a decorrer enfadonha, João achou que devia temperá-la com alguma animação e vai daí, começa a congeminar um plano.Dirige-se ao gabinete do oficial de dia, bate à porta, perfila-se, apresenta-se batendo uma continência e pergunta : « Sua Senhoria meu capitão não me empresta uma das bicicletas para dar umas voltas ? ».O oficial retorquiu negativamente e dizendo que ele se fosse embora e se deixasse de ideias luminosas.João fez outra continência em sentido, pediu licença para sair, fez meia volta e saiu batendo os calcanhares um contra o outro;era a prova provada de que a ordem unida também resultava com atrasados.No exterior avançou para o plano B.Montou a bicicleta e naquele dia ninguém mais o viu.Tanto pior para o sargento, pensou o capitão, que se lixe; as minhas rondas serão feitas de bicicleta.Ele que vá a pé. Chegou a hora do arriar da bandeira.O espanto era geral.A soldadesca, em sentido e apesar da solenidade do acto, continha o riso a muito custo.Em lugar da nossa bandeira verde rubra, o mastro ostentava o desaparecido velocípede.Ainda bem que se não desmancharam a rir.O capitão não achou nenhuma piada nem o nosso herói quando ao ler a Ordem de Serviço constatou que tinha apanhado dez dias de detenção.Mais uma nódoa vermelha na caderneta militar mas para que precisava ele da caderneta e além disso dizia-se que as porradas não eram feitas para os cães.Ia usar aqueles dez dias para descansar.Não faria faxinas às casas de banho ou à cosinha nem faria plantões à caserna.A vida assim era uma maravilha.Ele até encarava o castigo como uma condecoração.Tempos depois e na sequência de exercícios com arma e levando a G3 a tiracolo, cruza-se com o major capelão.João não sabia se tinha de fazer ombro arma, apresentar arma ou fazer uma continência.Afinal a ordem unida não tinha resultado plenamente. Atrapalhado, poisa a arma no chão e lembrando-se das aulas de catequese e que estava perante um padre, faz o sinal da cruz, benzendo-se.Ora toma ! - O capelão nem queria acreditar no que os seus olhos viam e olhem que já tinham visto coisas incríveis nas duas comissões que fizera no ultramar, ficou furioso mas a fama de maluco do nosso artista, precedia-o.O capelão era padre, não santo e era major.O posto falou mais alto que a voz do Senhor e pespegou-lhe um estaladão bem assente nas trombas.Uma acção vale mais que mil palavras.A última vez que o vi, ia escoltado pela polícia militar a caminho do presídio militar.Tinha-se metido em asneiras maiores que não interessam à nossa história.Ao ver-me, aclarou a voz e disse alto e bom som : arranja-me droga para fumar porque vou ficar muito tempo à sombra e sempre fico mais alegre.Como se ele precisasse de alguma coisa para o alegrar.Alegre era ele e vejam onde a alegria o ia levar.Os PM ainda olharam para mim de viés.Encolhi os ombros.Fui visitá-lo uma ou duas vezes à prisão e nunca mais o vi.Façam os dias felizes.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Conto - O Gato Selvagem - Risler Junior

João Silva era uma pessoa a quem aconteciam as coisas mais mirabolantes e fantásticas.Era caso para dizer que no caso dele, a realidade ultrapassava a ficção.Lembro-me de uma ou outra história que pretendo partilhar convosco.Devia ter cerca de oito anos quando morreu pela primeira vez.Estava ele a dar xutos na sua bola de meia novinha em folha.Novinha a bola porque a meia, essa era rota e já tinha sido tão passajada pela sua avó que tinha mais costura e fios de linha do que tecido da meia original.Não havia naquela época lojas de trezentos e eram poucos os ciganos que as vendiam; custavam caro e eram usadas até ao fim.O nosso João estava a divertir-se e a bola era mesmo boa.Pudera, estava cheia de retalhos e era bem fofa não sendo mole demais nem demasiado dura porque de uma maneira ou de outra, seria mau para os pés descalços.Pois.Descalços.Ter sapatos ou sandálias era luxo maior que ter meias.Enfim...Há dada altura, sem que tivesse sido alvo de alguma rasteira, caiu e ficou como morto.Como morto não; estava mesmo morto de papel passado pelo Delegado de Saúde.Providenciou-se o caixão.Velou-se o corpo num " combaritoco " de estalo com muita comezaina, vinho, aguardente de cana, quimbombo e quissângua.Jogaram-se às cartas.A bebida e a comida corriam a rodos.Era o por em prática de um adágio angolano que diz mais ou menos isto : « O que é bom acaba.O que doi esquece.O que é doce nunca amargou.Como e bebo sim.Porque no outro mundo não há. » A noite foi dando lugar ao amanhecer.Prepararam-se panelas de feijão de óleo de palma, canjica, muzongué iandungo e fritou-se peixe.Fez-se toda esta comida porque um funeral era dia de festa.Comeu-se mais e bebeu-se melhor.O caixão foi posto numa carreta e lá partiu o cortejo fúnebre para o funeral no cemitério do Calundo; lá chegados e como era costume, deu-se primazia às carpideiras mas antes que estas começassem a chorar e no momento em que se abria o caixão, o nosso João levantou-se dizendo " tenhooo fooome! ".Foi a confusão geral.Era ver quem mais corria.Afinal o morto estava vivo e vivo ficou;está tão vivo que tem sessenta anos.O outro episódio teve lugar um pouco antes de cumprir o serviço militar.Regressava ele à casa, de madrugada, quando lhe apareceu à frente o gato mais feio e sinistro que alguma vez tinha visto.Não era um gato normal.Este gato ia crescendo e aumentando de tamanho à medida que se aproximava dele.João estava estarrecido e o caso não era para menos.Estaria a sonhar.Esfregou os olhos.Não era sonho.João que crescera com a mania de ser um Serpa Pinto um Hermenegildo Capelo ou mesmo um Roberto Ivens, tinha por hábito andar com uma catana presa à cinta.Para grandes males grandes remédios.Engolindo o medo, puxou da catana e atirou-se ao bicho como gato a bofe.Acerta uma catanada na cabeça do mostrengo e este caíu de borco como fulminado.Como o barulho fosse muito, começou a acorrer gente que ainda teve ocasião de malhar no bicharoco; este não se mexia.Eis senão quando, o gato começou a transformar-se.O pessoal estava incrédulo e estarrecido.Era bem pior que " Drácula tem sede de sangue", filme que a maioria tinha visto no cinema piolho, na geral.Era assustador.Quando se acabou a transformação acabaram-se as dúvidas.Era um pessoa.Uma velhota.Uma alegada bruxa, especialista nas mais variadas especialidades e tida como kimbanda que dava consultas.Afinal... - Vieram a polícia, o administrador e o chefe de posto com os cipaios e ninguém queria acreditar que a velhota tinha sido abatida quando era um gato grande.Sortilégios, bruxedos, feitiços, encantamentos ? Os espanhóis dizem que não crêem em bruxas mas que elas existem e vocêeeeeee acreeeditaaaa ??? - A última vez que morreu,estava ele na morgue para ser autopsiado.Por qualquer razão desconhecida,talvez por falta de tempo, fora deixado nú em cima da pedra fria e tivera que ficar para o outro dia.De noite acordou e dirigiu-se ao guarda perguntando a razão de alí estar.Este que o fazia morto, por indelicadeza, em lugar de ouvir a pergunta, desatou a correr como se tivesse visto a mulher de branco.Provavelmente estará ainda a correr pois nunca mais ninguém o viu.Buuuuuuuu...Espero que tenham ficado com os cabelos em pé.Façam os dias felizes.

Conto - A Artimanha -Risler Junior

Esta história passa-se em Angola num passado recente, mais propriamente em 1975; estava-se a ferro e fogo e com os ânimos muito exaltados devido ao cheirinho de independência que pairava no ar. A cidade de Huambo não escapava aos ventos de mudança.Lembram-se concerteza.Era a Nova Lisboa, a tal que seria a capital do império idealizada por Norton de Matos.Voltando à nossa história direi que dois casais estavam em fuga a caminho da África do Sul conduzindo alternadamente uma viatura Ford Taunus 12m pois todos os quatro tinham carta de condução e que nenhum deles a tivesse, problemas não havia porquanto a polícia já não mandava.Mandavam as armas e o importante era o lado em que se estava, do lado da coronha ou da ponta do cano.Era a última esperança daqueles casais.Esperança tinham-na tido quando durante um serão haviam partilhado ideias dizendo que Angola era o futuro deles e dos filhos e que iria ser um belo país; lá belo era...quanto ao futuro, estavam em fuga e a vivê-lo com intensidade e quanto à esperança, estavam a perdê-la com muita rapidez.Munidos de algum farnel, uns quantos garrafões de água e de alguns haveres arrumados à pressa na bagageira do carro tinham encetado a fuga através do mato e fugindo das estradas e dos postos de controlo; sítios havia nos quais era exigido salvo-conduto.Há dado ponto do trajecto, os medos transformaram-se em certezas.Foram mandados parar e coagidos a sair do carro.Todos os quatro.A última a sair foi a senhora grávida de oito meses que perante a ameaça das armas e ao ar assustador dos guerrilheiros, estava tão assustada que só visto.Tremia como varas verdes.Teve de ser ajudada pelo marido antes que alguém lhe partisse os queixos com uma coronhada ou pior.O que parecia ser o chefe, depois de algumas perguntas, aquilatou que havia algum dinheiro entre os quatro e que o Ford embora gasto sempre renderia algum.O lucro seria mesmo muito bom quando comparado com o custo de umas quantas balas.Nem eram pagas por ele.Era tudo lucro.Mandou dois capangas acompanhá-los para um sítio mais afastado e que fossem mortos.Disse-o em dialecto esquecendo-se que havia mais gente a falar e a compreender algumas das línguas nativas.Aqueles quatro fugitivos tinham crescido entre negros e num bairro dos arredores.Sabiam que o destino deles estava traçado.Foram mandados parar.Não tinham andado muito porquanto a grávida mal podia com a barriga e os guerrilheiros tinham mais o que fazer.A uma ordem, sentaram-se.Um dos fugitivos teve uma ideia e perguntou em voz alta se não tinham ouvido tiros.Os guerrilheiros entreolham-se e a um sinal do outro, um deles afastou-se para indagar.Nesse momento os dois homens saltaram sobre o que ficara, tendo-o morto.Acto contínuo e antes que o outro voltasse, puseram-se em fuga. Foram socorridos, passadas duas semanas.Tinham comido o que calhava.Tinham sobrevivido.A criança nascera sã e escorreita.Um dos homens que era orgulhoso da sua farta cabeleira negra, tinha o cabelo todo branco.Branquinho.Tinham salvo a vida.Façam os dias felizes.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Conto - O Último a rIr - Risler junior

Este conto relata a história de dois homens, um mais novo e na flôr da idade e um outro mais velho, muito mais velho, experiente e com a escola da vida a contrapôr à arrogância própria de alguma parte dos jovens; por um acaso do destino esse imprevisível grão de areia na engrenagem do nosso quotidiano, eles encontram-se num dado momento.O mais velho, segurança há trinta anos, exercia funções de vigilante numa empresa em cuja portaria existia uma caixa multibanco.O jovem, aborrecido com o caos do trâfego, com o pára arranca e com os outros condutores, estava ainda mais abespinhado com o facto de não conseguir levantar dinheiro em nenhuma máquina.Já tinha ido a uma que estava off line e a outra que lhe dizia ' levantamento indisponível ', quando deparou com o sinal de multibanco num parque empresarial.Esfregou as mãos e achando-se com sorte, parou a viatura em frente do multibanco e ao fazê-lo ficou a obstruir o acesso; ninguém entrava e ninguém saíria enquanto ele não abandonasse a máquina e com dinheiro no bolso.O jovem dirige-se à máquina e aparece-lhe o velho segurança a importuná-lo dizendo que ele não podia deixar o carro daquela maneira e que fosse estacioná-lo e voltasse.O jovem que já estava em brasa retorquiu dizendo que ele se fosse f...digo lixar mais as teorias dele pois ele ia só levantar dinheiro e quem era ele para para se lhe dirigir naqueles termos incorrectos.O velho, careca lustrosa e cabelos brancos, corou de raiva mas engoliu em seco e calou-se porque todos vocês sabem que o calado vence porque com a boca fechada e as mãos cruzadas não se fazem ou dizem asneiras.O velho aparentemente tinha perdido a batalha e a guerra...O jovem, alto, magro e escorreito e com a certeza que havia vencido por K.O., dirige-se à máquina de cartão em riste como se empunhasse uma arma e introduz o cartão na ranhura.O velho, moita e de atalaia, aguardava como uma onça em alerta e pronto para o bote.No momento em que o cartão entrou na ranhura, que momento sublime para o velho, afinal tinha ganho o confronto.Desligou a electricidade.A máquina em agonia de morte e num estertor engoliu o cartão.O jovem, estupefacto.O velho, ufano sem demonstrar alegria mas quase a explodir.O jovem aos saltos.Da última vez que ficou sem o cartão de débito, esteve um mês sem ele.Que porcaria de vida...A moral desta história se alguma tem, é do arbítrio do leitor.Façam os dias felizes.

CONTO - O cristo - Risler Junior

Como repararam no título, escrevo " cristo " com letra minúscula para que o amigo leitor não confunda este " cristo " com CRISTO filho de DEUS que padeceu na cruz para nos salvar a todos.O cristo da nossa história, afirma para quem o quer ouvir que se trata do próprio, único e verdadeiro e que voltou a encarnar a sua figura terrena. Eu vi cristo assim como muita gente o terá visto na televisão porquanto, teve direito de antena e possibilidade de espalhar a palavra aos quatro ventos.Ele chegou numa camioneta de passageiros.A última camioneta da noite.Tarde e boas horas porque para cristo qualquer hora é boa.Apeou-se da camioneta numa paragem situada em frente de um canal de televisão.Poisou o pé direito porque cristo não duvida que isso é uma óptima ideia. Não caíu.Era um bom começo.Trazia como bagagem um saco.Encostou- o à berma da estrada e fez uns quantos exercícios para espairecer e caminhou um pouco porque trazia as pernas entorpecidas. Fez questão de ficar do mesmo lado da estrada. Debruçou-se e desapertando a boca do saco, retirou dele uma pequena garrafa de água; cristo é frugal e não necessita de luxos.Fez algumas abluções.Não muitas e despiu-se da cintura para cima.Atenção! - Não era um número de circo.Agarrou num pano branco e humedeceu-o.Com esse pano, limpou o corpo e a cara; achando-se limpo, vestiu um manto que na escuridão parecia imaculado.Pudera...cristo não tem mácula.Muito menos o pano. Agarrou num cobertor e sentando-se encostado à sebe, tapou-se e adormeceu profundamente parecendo até que não tinha que se preocupar com a renda de casa e outras minudências como : luz, gás, água ou o pão para os filhos.Bom, filhos não.Toda a gente sabe que cristo não tem filhos.Por volta das seis da manhã, o cobertor ganhou vida como ressuscitado e cristo que tinha dormido como um deus, acordava como mortal com remelas e mau gosto na boca e tudo.Exercitou as pernas e usando a garrafa de água e o pano, lavou-se.Perguntar-me-ão se a água era eterna e se não estaríamos perante um milagre; decididamente não era milagre.O saco é que sendo pequeno, parecia não ter fundo. Que tragédia.Cristo ficara sem água.Vestiu-se porque estivera nú da cintura para cima e envergou o manto que aos primeiros raios de sol, não parecia tão imaculado.Pormenores menores.Cristo tinha falta de água e resolveu ir ao café para comprar uma garrafa.Sim.Comprar.Cristo não gostava de água da torneira. O barista que já conhecia cristo de outros carnavais, deu-lhe uma corrida.Cristo correu.Não estava irado.A ira é pecado e cristo não peca. Parou junto ao tal saco e começou a montar o seu púlpito porque os " fiéis " já se deixavam ver a subir e a descer a rua; colocou cartazes com alguns ditos como um vezes dois igual a um, um vezes três igual a um. Os circunstantes iam parando dizendo uns que ele era maluco e outros apenas riam daquela matemática.Ele retorquia que as contas estavam certas porque o pai dele era apenas um, uno e indivisível e que lessem acerca da cidade quadrada.Em suma admoestava-os dizendo que estava tudo na Bíblia. Cristo era convincente. Convenceu um apresentador e dias volvidos apareceu na televisão onde se explicou perante milhões talvez angariando mais fiéis para a sua causa. Será que cristo fugiu do Júlio de Matos ou afins ? Não o sei. Sei é que nunca mais apareceu. Tenho apenas uma pequena dúvida : Se ele fosse o verdadeiro alguém acreditaria? - Talvez sim, talvez não. Eu sinto saudades de cristo embora faça questão de não o vêr tão cedo. Façam os dias felizes.