segunda-feira, 31 de março de 2008

Conto - O Golfinho - Risler Junior

Quando eu era miúdo a minha querida e saudosa avozinha Mariana, imbuída daquela sabedoria que só os avós possuem, mercê da longa vivência e experiência de vida de saber feito e que tão subaproveitada está nos dias de hoje nos quais os avós são dispensáveis, descartáveis e que já não vivem com os netos mas trancafiados em lares e afins, reunia os netos, que eram muitos, à volta de um qualquer fogo e contava histórias à miudagem.À propósito, na Angola da minha infância os avôs não iam para lares; eram parte integrante e participante das famílias e eram sempre escutados com atenção e ternura.Mudam-se os tempos...
O fogo era apenas um pretexto porque invariavelmente em Angola o calor é uma constante mesmo na época menos quente; o pretexto era comer batata doce assada nas brasas enquanto se ouviam histórias fantásticas e mirabolantes.A batata doce a escaldar dava pulos nas mãos como se tivesse vida e a nossa sorte é a língua aguentar muito calor.Ai, ui mas,não pares de comer.Algumas das histórias deixavam-nos amedrontados e sem vontade de dormir tal era o receio de fechar os olhos mas outras eram tão lindas e encantadas que o sono vinha num instante.E que dizer da banana pão, assada ?
Lembro-me de histórias de golfinhos salvadores de vidas de pessoas na eminência de se afogarem e que as levavam até à areia salvadora de uma qualquer praia onde as deixavam sãs e salvas; outras acerca de golfinhos que se interpunham entre pessoas e tubarões vorazes.
Na vida real e apesar de criança, não era fácil lidar com a verdade dura e crua : vendia-se carne de Golfinho, de Delfim , de Roaz ou Porco-Marinho ou de Toninha que eram tão vorazes que destruíam as redes de pesca; esta carne comia-se de maneiras várias e os pescadores matavam-nos para compensar a falta de pescado e ganharem uns trocados para sustentarem as proles e ao mesmo tempo terem dinheiro para reparar as redes.Era incompreensível para mim.Como podiam matar um animal inteligente, dócil e desinteressadamente amigo do homem ? Infelizmente, desde os tempos da minha, infância pouco ou nada mudou.
Há uns tempos atrás, num dia de inverno, vagueava pela praia da Aguda, próximo de Sintra, numa manhã fria e nevoenta quando dei de caras com a carcaça de um golfinho na areia.Como era grande.Devia ter mais de dois metros.Como devia ter sido imponente a sulcar as águas.De que teria morrido ? Quando me aproximei um pouco mais, verifiquei que lhe faltavam os lombos, possivelmente retirados para bifes.Que desperdício.Os antigos diziam que o golfinho era amigo do homem.Nós é que não somos amigos de ninguém.
Na Nova Zelândia e há alguns dias atrás, duas baleias deram à costa e ficaram encalhadas na areia, num baixio.Em desespero de causa, acorreram pessoas, que estavam quase a desistir de as salvarem pois todas as tentativas se frustravam.Nesse momento de angústia e desespero, apareceu um golfinho que conduziu as baleias para o alto mar e estas, quais cordeiros a seguir o pastor , afastaram-se da praia e da morte certa que as reclamava momentos antes.
Talvez as baleias se tivessem desnorteado ou talvez estivessem fartas de viver num oceano cada vez mais poluído pois há muitos exemplos do que parece ser um suicídio colectivo.Seja pelo que for elas estão vivas e graças aquele golfinho.
Pensava eu que os golfinhos apenas gostavam de pessoas e estava enganado.Ainda bem que eles são bem mais abrangentes.Afinal as baleias, tal como os golfinhos, também são cetáceos;deve ter-se tratado de entreajuda familiar.Nunca gostei tanto de ter estado enganado.Façam os dias felizes.

domingo, 30 de março de 2008

Conto - O Queima-Santos - Risler Junior

Dos sete pecados capitais há pelo menos um que a contragosto tenho de ter coragem de assumir.EU SOU INVEJOSO.Ninguém é perfeito; " Nul n' est parfait...sauf moi " dizia alguém há muitos anos.Eu não posso dizê-lo pois padeço do pecado da Inveja e em relação a duas coisas muito distintas ou não : Deus e Família.Sinto-o assumidamente em relação às famílias que se dão bem e contra ventos e marés se mantêm unidas, amigas e colaborantes e sinto uma inveja maior daquelas pessoas que sendo crentes, acreditam num Deus misericordioso, omnipotente, omnisciente, todo poderoso e que além disso é infinitamente bom; ou seja, tudo o que lhes acontece tem uma explicação divina porque misteriosos são os caminhos do Senhor.

Conheço uma aldeia de Portugal situada no concelho de Sabrosa, próxima de S.Martinho de Anta, terra natal dessa figura de médico e escritor insigne que foi Adolfo Rocha.Essa aldeia chama-se Donêlo do Douro e o Santo da devoção daquele povo é S.Domingos.Segundo a tradição oral, este Santo tem sete irmãos dos quais dois Domingos, um Leonardo e uma Santa são os mais famosos.São eles sete montes à volta do S.Domingos da nossa história e que se vêem uns aos outros " ad eternum " fazendo parte da Serra do Monte Coxo.

Nos arredores desta serra vivia um pastor de cabras que por aversão ao Santo, maldade ou qualquer pedido não satisfeito, foi protagonista de pelo menos duas histórias as quais lhe deram o nome de Queima-Santos.Toda a gente o conhecia e era motivo de troça não pela sua falta de habilidade a roubar mas pelo modo como S.Domingos, que o conhecia de ginjeira, não lhe dava espaço de manobra às suas tropelias e vilezas.

Certo dia e com a proximidade dos festejos em honra do Santo e ao avolumar das oferendas e ofertas daquele simpático povo, o nosso herói achou que podia arranjar uns trocados se assaltasse a capela e roubasse o que ao santo pertencia;se melhor o pensou, melhor o fez e pela calada da noite, dirigiu-se a um janelo pequeno da capela.Porfiando lá conseguiu entrar.Partiu as caixas das esmolas que eram em madeira e toca a encher quantos bolsos tinha.Ele eram moedas, notas de banco, fios e brincos de ouro...

Quando se dirigiu ao janelo para sair e fosse pelo que fosse e o povo diz que foi o Santo, não havia meio de conseguir escapulir-se.Ficava preso.Maldizendo S.Domingos, foi esvaziando os bolsos de tudo o que lá havia metido e só de lá saiu quando ficou com os bolsos completamente vazios.« Diacho do Santo, hás-de pagar-mas » casquinhava entre dentes, furibundo.

Passados dias e como a vingança ( prerrogativa de Deus ) é um prato que se come frio cogitou uma maneira de se vingar do Santo.Só vingança.As festas tinham acabado e não havia dinheiro.Ele ainda tinha a afronta de S.Domingos atravessada na garganta como uma espinha.Pior.Foi-se à porta da capela e arrombou-a.Estava farto de subtilezas.Assim tivesse ele agido antes e estaria a nadar em dinheiro! -A fúria era tanta que a porta saltou em fanicos e atirou-se ao Santo que aparentemente indefeso caiu desamparado do altar.Era duro e de boa madeira e resistiu à queda com galhardia.

O Queima-Santos que levava uma corda, atou-a à cabeça do Santo com o intuito de o arrastar para o exterior e fazer jus à alcunha que conquistara denodadamente, roubando santos e queimando-os, reduzindo-os a cinzas.Como eles ardiam bem e tão coloridas e vivas eram aquelas chamas; até se babava, antecipando o momento.Fora da capela atou a outra ponta da corda a uma cabra.O Santo assim atado começou a deslizar pelo barranco abaixo, puxado pela cabra que fugia esbaforida sabendo-se lá porquê.

Diz o povo que o S.Domingos em lugar de se soltar, era puxado pela cabra em direcção ao vale ao mesmo tempo que o Queima-Santos gritava aflito e a plenos pulmões « Agarra-te às estevas, mãos de aranha. Agarra-te às estevas ! » porque o Santo só teria valor para ele se queimado inteiro.Era ponto de honra.Claro que o Santo para o castigar nem ouvidos lhe dava e ' queimado ' ficou o nosso herói que escorregando com toda aquela azáfama, caíu por terra ficando ferido; chegada a GNR foi levado para os calaboiços.Quanto ao S.Domingos esse foi devolvido ao seu altar de honra.

Se forem a Trás-os-Montes visitem-no e aproveitem o ensejo e passem por S.Martinho de Anta, terra de Adolfo Rocha, vosso conhecido autor do Alma Grande dos Contos da Montanha, esse magnífico escritor que foi Miguel Torga.

A Fé é um dogma e o povo está-se nas tintas se o leitor acredita ou não nesta história.Eles acreditam e pronto.Por isso falava no início em inveja porque eles, os que acreditam, devem ser bem mais felizes por acreditarem do que aqueles que não acreditam e quanto a vocês, ateus, agnósticos, crentes, descrentes, indiferentes ou assim assim, façam os dias felizes...

domingo, 23 de março de 2008

Conto - O Provocador - Risler Junior

O herói desta história é um espanhol, nascido na Galiza, que veio para Portugal ainda criança, acompanhando os pais que procuravam uma vida melhor e que por cá foi crescendo.O Cubano, como era conhecido, embora se pudesse naturalizar, nunca o havia feito e dizia que espanhol tinha nascido e espanhol havia de morrer.
Aos dez anos já espalhava panfletos de propaganda contra o regime de então e aos vinte era militante de um partido da esquerda, com muito traquejo em comícios e manifestações de rua; é um episódio ocorrido numa dessas manifestações que passarei a contar.O Partido do coração marcou uma manifestação e no dia aprazado foram chegando a uma praça da capital os militantes, os simpatizantes, os curiosos e a polícia de choque.
Como de costume a polícia de choque parece nem dormir porque ainda o dia mal despontava e várias viaturas foram aparecendo, umas com polícias e outras com uma parafrenália de coisas que seriam usadas nas barreiras.Os polícias, façanhudos como só eles aparentam ser, foram-se posicionando num local previamente escolhido.Quando os primeiros manifestantes e curiosos começaram a aparecer, já os polícias estavam formados e equipados de viseiras, bastões e escudos´.

Foram abertas as hostilidades e foram sendo ditas as primeiras palavras de ordem e proferidos os primeiros apupos.O Cubano, de seu nome João, chegou numa dessas levas.Posicionou-se do lado oposto junto aos camaradas e usando de bom senso colocou-se ao lado de um coxo.Dizia de si para si « este é um bom sítio, se as coisas derem para o torto, sempre consigo correr mais rápido do que ele e se alguém tiver que apanhar umas cacetada, que seja o cabrão do coxo ».

Como era um bom estratagema, sentindo-se seguro, também ele abriu as hostilidades e começou a provocar um polícia de choque.Chamou-lhe nomes e insultando-o ia dizendo « estava mesmo a apetecer-te dar umas bordadoas hein, cabeça de martelo ? Tens cá umas trombas! Gostava de te dar umas bolachadas nessa cara de parvo ».Claro que o chui não tugia nem mugia mas notava-se que não se importaria nada de molhar a sopa.Principalmente naquele artolas provocador, o nosso Cubano.Era ponto de honra não saírem do quartel, em vão.Ao menos para experimentar os novos bastões e partir algumas cabeças.Aborrecido era o comandante não anunciar o início da ' festa '.

O momento aguardado com ansiedade surgiu quando num vozeirão o comandante da força proferiu as palavras mágicas : à Caaaarrrgggggaaaa ! A polícia avançou com ganas e o tal chui tinha um alvo fixado, o Cubano; este desatou a correr e qual não foi o seu espanto ao verificar que o coxo corria muito mais que ele.Parecia movido a turbo e o polícia começou a descarregar fúria nos costados do nosso herói e amassou-o de tal forma e com tal veemência que o Cubano desejou estar noutro lado.No melhor plano cai a nódoa, essa é que essa.

O Cubano esteve perto do " flic ", demasiadamente próximo e a prova foram as medalhas que ficaram a marcar-lhe o corpo sobre a forma de equimoses, nódoas negras e algum sangue que escorria dos ferimentos na cabeça.Tinha sido mimoseado e mais do que teria imaginado.Uma coisa era certa.Com aquela proximidade, tinha fixado as feições do polícia e ele que aguardasse.Não ia perder por esperar.

Foi indagando e soube que o polícia parava muitas vezes num boteco perto do quartel onde, na companhia dos amigos, bebia uns quantos copos e comia uns petiscos.Elaborou um plano e tratou de -lo em prática.Comprou uma gaiola e cem gramas de alpista para canários.Agarrou na alpista e de gaiola na mão dirigiu-se ao local do " rendez vous ".
Entrou no boteco e pediu um taça de branco e um pastel de bacalhau porque se a vingança dá alguma sede, o antecipá-la estava a dar-lhe fome. Comeu o pastel e bebeu um gole de vinho. E outro ainda para aclarar a voz. Dirigiu-se ao polícia que estava sentado e colocou com displicência a gaiola em cima da mesa. Meteu a mão no bolso e sacou da alpista e começou a alimentar o pássaro imaginário.

« Não bebas sem comer, canarinho. Come um pouco desta alpista que te trago. » É claro que toda a gente ficou a olhar para ele como se de um maluco se tratasse. O Cubano, que ainda trazia as marcas do amor policial, não se intimidou e acrescentou, encarando o ' canário ' : « eu também comi umas cacetadas mas tu, que nem cantar sabes, nem esta alpista mereces e fica a saber que eu sou mais livre do que tu e que para a próxima, vais comer muito mais do que alpista ».
O polícia corou, percebendo a jogada e a assistência riu-se a bandeiras despregadas, compreendendo a intenção; quem não achou graça foi o polícia-de-choque-em-tempo-de-folga, ficando mais vermelho que um pimentão doce e sem palavras para retorquir. « Tu não és livre porque é um infeliz pau mandado, canarinho lindo » e dizendo isso poisou a alpista na mesa, fez uma vénia e declarou : « este canário é para si, Senhor Agente ».Ainda a galhofa se fazia ouvir e já o Cubano abandonava o boteco a caminho de casa.Faça os dias felizes.











































Conto - Liberdade e Gratidão - Risler Junior

Diz-se que só valorizamos a liberdade quando a perdemos.Talvez devido ao hábito de nós, humanos, darmos tudo por garantido e esquecermos como foi difícil ganhá-la e o quão fácil é perdê-la.Talvez seja muito mais fácil ficar sem ela até porque nem sempre sentimos gratidão por quem lutou e se sacrificou para a conquistar.Somos uns ingratos. Um certo político afirma que " há muita falta de memória " e como disse um pensador " Uma Nação de Ovelhas Dá Lugar a Um Governo de Lobos ".
No reino das aves, esses seres que nos alegram a existência quando cantam em liberdade ou o fazem presos em gaiolas, não se passa assim; talvez elas tenham valores que nós desprezamos e é pena.Sabiam que se apanharem uma cria de Pintassilgo e a forem criando numa gaiola nas proximidades do sítio da captura, são os próprios pais que lhe dão umas bagas muito apetecíveis mas venenosas para que as crias morram .
É o aplicar do conceito muito humano " liberdade ou morte ".Acho que os progenitores Pintassilgos o levam demasiado longe mas, preferem ver um filho morto do que vê-lo crescer anafado e gordo, sem liberdade.
O termo " gratidão " conduz a uma história que vivi na primeira pessoa; certo dia e no exercício de funções laborais, estava eu a ler o jornal num stand de vendas, quando fui surpreendido pelo piar aflitivo de um Pisco que dava às asas com muita força e parecia querer que eu reparasse nele.Intrigado, poisei o jornal e levantei-me da secretária dirigindo-me à porta levado apenas pela intuição e curiosidade.
Lá chegado, o pássaro fugiu em alvoroço sem ir para muito longe e continuando na chinfrineira.« Estranho » pensava eu.Estava nestas cogitações quando reparei que estava um passarinho ainda imberbe e de asitas pouco guarnecidas, no vão das escadas do prédio em construção.Olhando à volta constatei que ele havia caído de um ninho que já me tinha despertado à atenção , anteriormente , devido às idas e vindas dos construtores carregados de palhinhas e galhos.
Como o ninho estava muito alto, providenciou-se uma grande escada e depois de alguns malabarismos e equilíbrios periclitantes, dignos de funambulistas de circo, consegui devolver o fugitivo ao recesso e aconchego do lar paterno; eis senão quando e já de regresso à leitura, oiço e reparo no bater de asas e no chilrear do Pisco que pairava em voo como que a agradecer a prestimosa ajuda que lhe havia proporcionado.Eu, que me comovo com tudo, fiquei estupefacto com aquele comportamento.Seria gratidão ?
Os antigos dizem que os Tentilhões morrem ao mais pequeno susto porque têm o coração fraco.Não será medo de perder a liberdade ? Lembro-me de em garoto ter visto um casal de aves a construir um ninho ao longo dos dias e embora criança, ter achado que o sítio não seria o melhor por ser num local desabrigado.Como sabem a natureza não quer saber de desgraças, gratidão ou liberdade.Semanas volvidas e já com filhotes no ninho, este não tinha sombra e afianço que sob um sol escaldante e inclemente, ambos os progenitores se revezavam pairando sobre o ninho para projectar sombra, numa tentativa de os salvar pondo em risco a própria vida.
O Rouxinol que tão bem canta e melhor oculta o ninho nos silvados, abandona-o se notar que mais alguém senão ele, conhece a sua localização e outras aves como o Pintarroxo são as primeiras a denunciar a sua presença parecendo não se importarem.O Cuco prefere roubar os ninhos dos outros.A Pega rouba tudo o que pode e tenha brilho.O Gaio imita na perfeição as outras aves e até a quem diga que são como papagaios a imitar os humanos.
A liberdade tem um preço por vezes demasiado alto e digo que podemos sempre ir olhando à nossa volta e observar com atenção o comportamento dos " irracionais " para nos vermos a nós próprios e nos lembrarmos daquilo que nunca devíamos ter esquecido.Façam os dias felizes.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Conto - O Casamento - Risler Junior

O casamento é uma instituição ou já o foi e agora não é tanto assim, porque o que era um dogma ontem, talvez seja hoje uma dúvida e as pessoas já não acreditem no amor e numa cabana como no passado; nos dias de hoje, acredita-se em coisas mais palpáveis como férias no estrangeiro e dinheiro na carteira para gastos.

É por isso que nos quedamos incrédulos e de cara à banda quando ouvimos falar num casamento que reuniu três mil convidados.Deve ter sido um casamento de pessoas muito ricas e da alta sociedade, ficamos nós a pensar e a imaginar o dinheiro que se terá gasto.Como diz o outro, só perde quem não tem e assim como assim, quem o tem que o gaste como quiser.Mas não se trata de facto de um casamento rico.

Esta união teve lugar num sítio esconso no leste da Índia e o padre que o realizou, caracterizou a experiência como única e a avaliar pela ementa podemos dizer que o banquete teve uma ementa tão simples que o dinheiro não deve abundar; pudera, os pais dos noivos não negoceiam em aço nem são magnatas da informática ou banqueiros.

A multidão de convidados banqueteou-se com arroz, lentilhas, verduras, pratos de peixe e doces e eu gostaria de ser mais assertivo no tocante à ementa mas não vou por-me a inventar nem dizer que o ' chef de cuisine ' que tratou da confecção do repasto era detentor de cinco estrelas da Michelin.Bolas ! Tenho de explicar tudo.Não, não é marca de pneu.Vocês, com a gasolina tão cara e ainda pensam em pneus.Sei que a ementa era essa.Não sei se beberam vinho e digestivos.Sei que na Índia não se bebe álcool e portanto parto do princípio que a bebida foi água ( H2 O ) e que não veio de nenhum glaciar; acho que era água do rio Ganges que corre " límpido "ali perto.Vocês também deviam beber apenas água como eu e da torneira que é mais barata e melhor, bem melhor do que a das Ilhas Fidgi que bem cara é.Estou a desviar-me...

O feliz casal recebeu presentes vários dos convidados e um comerciante da região, perdendo a cabeça e pelo apreço que nutria pelos noivos, ofereceu um magnífico colar de ouro à simpática noiva que sendo muito linda, ficou ainda mais esplendorosa e vaidosa.O ouro tem essa magia.É do brilho.

A festa foi decorrendo muito animada porque a água sobe à cabeça quando é muita e perde-se a cabeça quando não há; deve ser uma das propriedades dos líquidos.Não sei se se dançou ou se disseram mantras.Não sei mas gostava de saber.Se ficam contentes com música, imaginem.

Os noivos que tinham crescido em lugares diferentes e educados por famílias diferentes como animais de estimação tinham vivido toda a sua vida acorrentados.Naquele dia solene foram libertados como se tivessem recebido a carta de alforria.As correntes foram retiradas e o nosso casal de macacos foi libertado numa selva perto dali.
Porra! Estou farto.E eu é que sei se eles viveram felizes para sempre e tiveram muitos macaquinhos ? Já é mania.Nem sei se foram infelizes para sempre.Puxem pela caixa dos pirolitos e imaginem que sim porquanto todos temos o direito e o dever de ser felizes embora a felicidade seja tão fugidia e rectroactiva que só se saiba que foi vivida quando ela se foi.Em quaisquer dos casos, faça os dias felizes.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Conto - O Lunático - Risler Junior

Sem dúvida alguma e a respeito de muitos assuntos, sempre haverá gente capaz de defender as ideias mais estapafúrdias, absurdas e inconsistentes ao mesmo tempo que outras haverá que sempre serão do contra, este é o caso do personagem da nossa história de hoje, um revolucionário, contestatário e adepto do contraditório.Nem a Mafalda, boneco do Quino, consegue ser tão acutilante, anarquista e assertiva.Vamos ver...
Há uns tempos atrás, um jornal dizia em grandes parangonas que " é tudo uma grande aldrabice, nunca fomos à Lua, diz o lunático ".Então não querem lá ver que eles acreditaram que o Neil Armstrong, o tal, nascido em Wapakoneta no Ohio, tenha pisado o solo lunar aos 20 de Julho de 1969.« E eu é que sou lunático por não acreditar em balelas ? » pensava ele, incrédulo.
« É um pequeno passo para o Homem mas um grande passo para a Humanidade », foi uma frase muito bonita mas parece tão falsa como um discurso improvisado que seja preparado muito antes de se proferir.« Faço-vos um convite e aquilatem por vós próprios : visitem o Museu da Ciência em Londres e vejam o Módulo de Comando e Serviço ( MCS ) e o Módulo Lunar ( ML ) Eagle e digam se ainda continuam a acreditar. » acrescentava.
Passaram quase quarenta anos sobre aquele alegado feito e os americanos nunca mais foram à Lua e ao ver no Museu da Ciência a cápsula da Apollo X emprestada pelo Museu Metropolitano de Nova York, as possíveis razões saltam à vista.Em 1969 não havia tecnologia para ir à Lua quanto mais para a pisar.Para dar apenas um número, convém dizer que a reentrada na órbita da Terra atingia 39000 Km/Hora e a cápsula se transformava numa bola de fogo.Vocês dir-me-ão que havia protecção térmica e eu pergunto « qual protecção ? ».Disse Apollo X porque é quase igual à Apollo XI.Podem lá ir vê-la.Puxem os cordões à bolsa e embarquem.Já agora e porque estão com a mão na massa, comprem um Torrinha, um Lello ou um Editora e saibam o significado do termo ' lunático '.Custa menos do que ir a Londres.
Poderá lá ser que aquela porcaria tenha ido à Lua e voltado ? - E eu é que sou lunático ? - Até os russos dizem para quem quer ouvir que os americanos nunca lá foram e olhem que os russos ainda hoje têm uma tecnologia superior.Pisar a Lua representava protagonismo e de facto a tal alunagem foi a maior audiência de televisão jamais reunida; tão grande que só podia ser encenação.Era um assunto de ' dètante ' e de prestígio.Foi o vencer do jogo entre o Capitalismo e o Comunismo e o primeiro venceu mas não convenceu nem a mim nem a muitos mais lunáticos.
O cinema é a arte do engano ou não ? - Querem convencer-me que aquelas imagens não foram feitas num estúdio ou num qualquer armazém da Área 51 ? - Bandeira a abanar ao vento e pó...Francamente.Serei do contra mas sempre vos digo que em 1965 já havia imagens iguais às vistas em 1969 e com isto o meu cepticismo aumentou ainda mais.« Um homem tem direito à indignação e tem direito à opinião.Tem ou não tem ? » claro que tem.Digo-vos eu.Não acreditam ?
Pois olhem.Posso ser lunático mas tenho uma certeza : Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin nasceram todos em 1930; nisto acredito.Não sou assim tão lunático.Ah... a entrada no Museu da Ciência é grátis e há umas caixas recolectoras espalhadas e cartazes,pequeninos para não assustar os tesos, a apelar ao vosso contributo.Eu não dei nada porque os ingleses já têm muito dinheiro.Sigam o meu exemplo.Com o dinheiro do hipotético óbulo, bebam antes uma ' Guiness ' e imaginem que estão na Lua ou em Alfa de Centauro e façam os dias felizes.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Conto - Cinturão Negro - Risler Junior

Quando a viatura parou a pouca distância da caixa multibanco era evidente que o condutor não podia abandonar a viatura nem estacioná-la correctamente porque não tinha onde; após um breve diálogo, a porta do pendura abriu-se e uma jovem senhora em estado adiantado de gravidez, encetava preparativos para dela sair com esforço e algum desconforto.Fazendo das tripas coração, iniciou a marcha com dificuldade em direcção à máquina tão almejada que ficava num banco ao virar da esquina e fora das vistas do marido que ficara no automóvel.A jovem senhora coloca-se na fila e aguarda pacientemente pela sua vez. Ninguém se tinha virado e ninguém vira portanto que ela estava grávida para lhe ceder a vez, a não ser um jovem adulto com olheiras e muito mau aspecto que se postou atrás dela para levantar dinheiro, embora não tivesse dinheiro nem tampouco cartão multibanco.Ou seja ele queria dinheiro, era uma certeza pois o último chuto na veia tinha sido há quase dois dias num pardieiro para os lados do Casal Ventoso e era premente que tomasse outra dose o quanto antes.Ele já nem via e as dores e espasmos que sentia, começavam a ser insuportáveis.Tinha de arranjar algum para chutar na veia.Quando se colocou atrás da grávida, fingindo ser mais um utente e enquanto aguardava, bolou um plano de ataque.O plano A, consistia em roubar aquela grávida desamparada e desavisada. « Que melhor alvo poderia ele ter encontrado? Ela estava mesmo a pedir que a assaltassem. Vendo bem, até parecia que tinha um cartaz na testa com os dizeres ( próxima vítima - assaltem-me que sou inofensiva ) ». Pensava ele de si para si com a última réstia de miolos que sobrava das quantidades de droga que já tinha tomado. O espírito estava embotado mas o corpo precisava de droga. « Que se lixe ! ».E quanto ao plano B, esse que se lixasse, porra! « Uma mulher e ainda por cima grávida.Deus deve mesmo existir e mandou-me este anjinho da guarda ».O indivíduo que estava à frente da grávida, fez o que tinha a fazer e foi à vida dele.Era chegada a vez da grávida que avançou com o cartão na mão.Diz-lhe o drogado : « Oh cheinha, levanta também dinheiro para mim ou espeto-te esta seringa infectada e para que saibas eu tenho SIDA ».A jovem senhora nem queria acreditar e com olhos esbugalhados, com mais medo da criança que trazia no ventre do que com ela própria, lá conseguiu balbuciar « nem penses nisso.Se queres dinheiro vai trabalhar, malandro ».Palavra puxa palavra e o diálogo foi decorrendo.Um queria dinheiro e outra não queria dar.O marido, achando que a demora era muita mas preocupado com a esposa, abandonou mesmo o carro e dirigiu-se ao banco.Quando lá chegou, estava a grávida com o salto do sapato a pressionar as goelas do drogado que jazia, aflito, esparramado no chão.Costuma dizer-se que um dia é do caçador e que outro é da caça.Naquele dia a caça tinha batido aquele aos pontos.A vítima indefesa, o anjinho da guarda enviado por Deus, não era anjinho nenhum,era campeão nacional de judo e com um golpe certeiro tinha derrubado mais um adversário e este, coitadinho, nem fazia ideia do oponente que tinha tido à sua frente.Tivesse ele um Plano B e mesmo esse não teria resultado ou seja como plano de recurso, devia ter escolhido outra vítima.Lá veio a GNR e lá foi o nosso drogado dar gritos para o Governo Civil porquanto era sexta-feira e o tribunal só o ouviria na segunda e de preferência sem gritos porque os juízes já ouviram tantos que não se comovem.Façam os dias felizes.

Conto - Malaquias e Agapito - Risler Junior

Malaquias e Agapito eram amigos de longa data e viviam num enorme parque nacional rodeados de muitas plantas e árvores centenárias;leu bem, eram duas árvores.Malaquias era um pinheiro com duzentos anos, nascido no mesmo dia em que o Príncipe Regente de Portugal, futuro D.João VI chegava a Baía no Brasil fugido às tropas desse cabo-de-guerra que era Napoleão Bonaparte.Era o dia 22 de Janeiro de 1808.Curiosamente Agapito havia nascido exactamente cincoenta e quatro dias antes e digo isto porque a data do seu nascimento coincidiu com a fuga do Regente, da esposa D.Carlota Joaquina mais conhecida por ' A Megera ', pela Rainha D.Maria que já não batia bem da carola e cerca de 1500 membros da Corte portuguesa que numa viagem atribulada aportaram ao Brasil carregados de algumas riquezas que era urgente serem retiradas do país.Como dizem os historiadores eles aportaram carregados também de piolhos, pulgas e afins e de um pivete descomunal o qual não era estranho ao Regente porquanto o primeiro banho de corpo inteiro que tomou foi com a idade de cincoenta anos e mesmo esse banho foi por recomendação do médico, tal era a comichão e o mal estar em que se encontrava.Para sermos precisos diremos que o Malaquias era um pinheiro do norte da Europa.Mas, que raio, como é que um pinheiro importado do norte da Europa, o Malaquias e um sobreiro alentejano, o Agapito coabitavam no mesmo espaço geográfico ? - A resposta é muito simples e nada tem de misterioso porquanto havia um terreno que estava a ser resflorestado e muitas árvores e plantas de algumas partes do mundo foram trazidas para Portugal e ainda hoje existem e são uma maravilha.« É do conhecimento de todos que os humanos são uns usurpadores no tocante a nomes; ignoro a razão de terem nomes como Pinheiro, Cerejeira, Pessegueiro, Pereira e por aí fora.Já não bastava usarem-nos de todas as maneiras possíveis e tinham ainda de nos roubar os nossos queridos nomes » dizia o Agapito ao seu amigo Malaquias em tom de desabafo. « Pois sim» dizia o Malaquias « um rei que mal chegara ao Brasil e logo mandou pintar nas casas as letras P.R. ( ponha-se na rua ), que a Corte precisa destas casas.Um verdadeiro ditador e um déspota, essa é que era a verdade ».Claro que o Malaquias bem sabia que as iniciais queriam dizer ' Príncipe Regente ' e que o povo, a falta de melhor, brincava e dava-lhes outro significado ao que o Agapito retorquía que D.João tinha de alojar o séquito e com urgência e sempre foi dizendo que era melhor encarar a permanência da Corte no Brasil pela positiva e constatar que naqueles treze anos, o Brasil se tinha transformado para melhor, unido, desenvolvido e com fronteiras inalteradas como uma nação. « Pois pois » casquinhava o Malaquias « enquanto nós em Portugal tínhamos frio e fome de sobra e morríamos que nem tordos; nem sei dizer quem eram os maus.Se os franceses nossos inimigos se os ingleses, os nossos amigos, ou o Regente que se pôs em fuga dando ordens de rendição e não agressão às tropas francesas ».O Agapito respondeu contemporizador « deixa lá.Isso são águas passadas e foi um martírio que já está ultrapassado ».O Malaquias sempre foi dizendo que tinham morrido centenas de milhar de pessoas à fome e à míngua e que nem pão havia devido às ideias luminosas de se queimarem as cearas para os franceses não terem pão.« Nem eles nem nós » respondia o Agapito. « Oh puto sabes que mais, o melhor é ficarmos por aqui e olha que aquilo que nos une é mais forte do que aquilo que nos separa » disse o Agapito para finalizar a conversa. « Isso é que era bom.À conta da retirada da Corte, tivemos mais fome e miséria com a guerra civil devido ao regresso do brasileiro D.Pedro IV e às ideias liberais e absolutistas. Nunca tivemos falta de fome e de miséria » disse o Malaquias.Em 2008 não estamos melhor, diria eu; basta estar atento às notícias e verificar que um quinto dos portugueses vive na pobreza e que muitos deles, a partir de meados do mês só têm pão para comer e de quem é agora a culpa ? - Façam os dias felizes.