segunda-feira, 31 de março de 2008

Conto - O Golfinho - Risler Junior

Quando eu era miúdo a minha querida e saudosa avozinha Mariana, imbuída daquela sabedoria que só os avós possuem, mercê da longa vivência e experiência de vida de saber feito e que tão subaproveitada está nos dias de hoje nos quais os avós são dispensáveis, descartáveis e que já não vivem com os netos mas trancafiados em lares e afins, reunia os netos, que eram muitos, à volta de um qualquer fogo e contava histórias à miudagem.À propósito, na Angola da minha infância os avôs não iam para lares; eram parte integrante e participante das famílias e eram sempre escutados com atenção e ternura.Mudam-se os tempos...
O fogo era apenas um pretexto porque invariavelmente em Angola o calor é uma constante mesmo na época menos quente; o pretexto era comer batata doce assada nas brasas enquanto se ouviam histórias fantásticas e mirabolantes.A batata doce a escaldar dava pulos nas mãos como se tivesse vida e a nossa sorte é a língua aguentar muito calor.Ai, ui mas,não pares de comer.Algumas das histórias deixavam-nos amedrontados e sem vontade de dormir tal era o receio de fechar os olhos mas outras eram tão lindas e encantadas que o sono vinha num instante.E que dizer da banana pão, assada ?
Lembro-me de histórias de golfinhos salvadores de vidas de pessoas na eminência de se afogarem e que as levavam até à areia salvadora de uma qualquer praia onde as deixavam sãs e salvas; outras acerca de golfinhos que se interpunham entre pessoas e tubarões vorazes.
Na vida real e apesar de criança, não era fácil lidar com a verdade dura e crua : vendia-se carne de Golfinho, de Delfim , de Roaz ou Porco-Marinho ou de Toninha que eram tão vorazes que destruíam as redes de pesca; esta carne comia-se de maneiras várias e os pescadores matavam-nos para compensar a falta de pescado e ganharem uns trocados para sustentarem as proles e ao mesmo tempo terem dinheiro para reparar as redes.Era incompreensível para mim.Como podiam matar um animal inteligente, dócil e desinteressadamente amigo do homem ? Infelizmente, desde os tempos da minha, infância pouco ou nada mudou.
Há uns tempos atrás, num dia de inverno, vagueava pela praia da Aguda, próximo de Sintra, numa manhã fria e nevoenta quando dei de caras com a carcaça de um golfinho na areia.Como era grande.Devia ter mais de dois metros.Como devia ter sido imponente a sulcar as águas.De que teria morrido ? Quando me aproximei um pouco mais, verifiquei que lhe faltavam os lombos, possivelmente retirados para bifes.Que desperdício.Os antigos diziam que o golfinho era amigo do homem.Nós é que não somos amigos de ninguém.
Na Nova Zelândia e há alguns dias atrás, duas baleias deram à costa e ficaram encalhadas na areia, num baixio.Em desespero de causa, acorreram pessoas, que estavam quase a desistir de as salvarem pois todas as tentativas se frustravam.Nesse momento de angústia e desespero, apareceu um golfinho que conduziu as baleias para o alto mar e estas, quais cordeiros a seguir o pastor , afastaram-se da praia e da morte certa que as reclamava momentos antes.
Talvez as baleias se tivessem desnorteado ou talvez estivessem fartas de viver num oceano cada vez mais poluído pois há muitos exemplos do que parece ser um suicídio colectivo.Seja pelo que for elas estão vivas e graças aquele golfinho.
Pensava eu que os golfinhos apenas gostavam de pessoas e estava enganado.Ainda bem que eles são bem mais abrangentes.Afinal as baleias, tal como os golfinhos, também são cetáceos;deve ter-se tratado de entreajuda familiar.Nunca gostei tanto de ter estado enganado.Façam os dias felizes.

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